A Netflix tem um problema
conhecido: catálogo imenso, curadoria quase inexistente. O algoritmo empurra o
que é novo, o que é popular e o que foi produzido pela própria plataforma. O
que sobra nas margens, sem empurrão e sem campanha, é frequentemente o melhor
que a plataforma tem. Esta primeira edição do Vale o Play reúne sete filmes que
estão na Netflix Brasil agora e que merecem mais atenção do que o algoritmo vai
dar a eles. Vêm de Taiwan, Coreia, Japão, Tailândia, Espanha e Estados Unidos.
Têm em comum a qualidade que o streaming raramente destaca: a de filmes que
ficam depois que acabam.
A Garota Canhota
(2025) — Shih-Ching Tsou
Dois amigos de infância coreanos separados pela emigração se reencontram duas décadas depois em Nova York. Entre eles, o marido americano de Nora e a pergunta sobre o que fica quando duas pessoas que poderiam ter sido tudo uma <== cliquepara a outra escolheram vidas diferentes. Uma das estreias de direção mais precisas do cinema americano recente.
Dias Perfeitos
(2023) — Wim Wenders
Hirayama limpa banheiros
públicos em Tóquio, ouve cassetes no carro e fotografa árvores. Wim Wenders
filmou a vida mais simples possível com uma atenção que transforma cada rotina
num argumento sobre presença. Koji Yakusho ganhou o prêmio de melhor ator em
Cannes. Um filme que você sai assistindo mais devagar.
Um trabalhador das ferrovias
americanas no início do século XX perde a família num incêndio e passa décadas
sozinho na floresta. Andrew Haigh, diretor de Fim de Semana e Tudo que
Queremos, filmou o luto e o isolamento com uma beleza que não ameniza o peso do
que está contando. Joel Edgerton numa das melhores performances do ano.
Como Ganhar Milhões
Antes que a Vovó Morra (2024) — Pat Boonnitipat
Uma freira rígida suspeita que
um padre popular esteja abusando de um aluno. Sem prova, sem certeza, sem
conforto. Shanley adaptou sua peça vencedora do Pulitzer com Meryl Streep,
Philip Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis em quatro das melhores atuações
do cinema americano dos anos 2000. O filme não resolve. É esse o ponto.
Chiara encontra a mãe que a
abandonou na infância e propõe que passem dez dias juntas numa casa isolada nas
montanhas entre Espanha e França. O que se segue são dez dias de silêncio,
tensão e o que duas pessoas fazem quando não há mais como evitar o que nunca
foi dito. Cinema espanhol de câmara no seu melhor.