A Sight & Sound realiza dois polls simultâneos a cada
dez anos, publicados na mesma edição. O primeiro, e mais conhecido, é o poll de
críticos: em 2022, 1.639 profissionais entre críticos, programadores,
curadores, arquivistas e acadêmicos votaram nos dez filmes que consideravam os
maiores de todos os tempos. O segundo, que existe formalmente desde 1992, é o
poll de diretores: em 2022, 480 cineastas de todo o mundo submeteram suas
listas. Cada participante envia dez títulos sem ordem de preferência. O
vencedor é o filme que aparece no maior número de listas.
Essa mecânica tem uma consequência importante: o número um
não é necessariamente o filme que alguém considera o melhor, mas o filme que
mais pessoas sentiram que precisavam incluir. Em 2022, essa distinção produziu
resultados radicalmente diferentes entre os dois eleitorados.
Dois eleitorados, dois olhares
O eleitorado de críticos de 2022 foi o mais diverso da
história do poll: mais mulheres, mais profissionais do Sul Global, mais
curadores de cinematecas e arquivistas ao lado de críticos tradicionais. Esse
perfil produziu uma lista que privilegia a ruptura formal, a representatividade
histórica e o cinema que questiona o cânone estabelecido.
O eleitorado de diretores tem um perfil diferente. São
profissionais cujo julgamento estético é formado pelo próprio trabalho: o que
um cineasta elege como grande cinema é frequentemente o que o formou
tecnicamente, o que o ensinou sobre linguagem, o que demonstrou que determinado
problema de mise-en-scène tem solução. Martin Scorsese, Barry Jenkins, Sofia
Coppola, Bong Joon-ho e Lynne Ramsay estiveram entre os votantes. O resultado é
uma lista que privilegia o cinema que fundou linguagem, que resolveu problemas
que ninguém havia resolvido antes, que se tornou referência técnica e narrativa
para gerações de profissionais.
As diferenças que revelam mais
O Poderoso Chefão é terceiro para os diretores e não aparece
no top 10 dos críticos, chegando apenas ao 12º lugar. É um dos filmes mais
estudados em escolas de cinema do mundo, uma aula sobre estrutura narrativa,
performance e direção que cineastas conhecem de dentro. Para o eleitorado de
críticos de 2022, o prestígio histórico não foi suficiente.
As ausências cruzadas completam o quadro. Beau Travail de
Claire Denis e Mulholland Drive de David Lynch estão no top 10 dos críticos mas
fora do dos diretores. O Espelho de Tarkovsky e Persona de Bergman estão no top
10 dos diretores mas fora do dos críticos. São filmes de extraordinária
influência sobre cineastas, mas que os dois eleitorados pesaram de formas
completamente diferentes.
Comparação com a edição anterior
Na edição de 2012, a lista de diretores era encabeçada por
Era Uma Vez em Tóquio, com Cidadão Kane em segundo. Em 2022, "2001" tomou o primeiro
lugar e Kane se manteve em segundo. Jeanne Dielman foi a grande entrada nova:
saltou de uma posição marginal para o 4º lugar empatado, incorporada também ao cânone
dos cineastas.
O que se pode esperar em 2032
O eleitorado de diretores tem crescido a cada edição: de 101
em 1992 para 480 em 2022. Em 2032 deve ultrapassar 600 votantes, com presença
crescente de cineastas da Ásia, da África e da América Latina com referências
formativas diferentes das que dominaram o eleitorado europeu e norte-americano.
A geração que emergiu nos anos 2000 e 2010 tem uma relação diferente com o
cânone, formada com acesso mais amplo ao cinema mundial. É provável que filmes
de Apichatpong Weerasethakul, Pedro Costa e Jia Zhangke ganhem mais peso. É
igualmente provável que 2001 se mantenha no topo: o fascínio técnico de Kubrick
sobre cineastas não diminui com as gerações.
Dir: Wong Kar-Wai
A pergunta que fica
Os dois polls revelam que não existe um único cânone do
cinema, mas pelo menos dois: o que os críticos constroem a partir de critérios
culturais, históricos e políticos, e o que os cineastas constroem a partir do
que os formou tecnicamente e artisticamente. As listas se sobrepõem em pontos
significativos, mas divergem o suficiente para confirmar que o maior filme de
todos os tempos depende fundamentalmente de quem está respondendo à pergunta.
Em 2032 as respostas serão outras. E o debate vai continuar sendo o ponto.
Nota editorial
Esta é a terceira edição da série Top 10 — Mas de Quem? da
Filmoteca Seu Manolo. A leitura em paralelo com a segunda edição, que tratou da
lista de críticos da mesma pesquisa, revela o que uma lista isolada não revela:
que o mesmo veículo, no mesmo momento, com eleitorados diferentes, produz
resultados que contam histórias diferentes sobre o que o cinema é e para quem.
No Crítica Livre de Cinema, análise individual de cada um dos dez filmes.
Próxima edição a definir.