Quem votou

O ranking foi elaborado a partir de listas individuais dos 25 melhores filmes brasileiros de cerca de cem membros da Abraccine, entre os quais Pablo Villaça, Celso Sabadin, Amir Labaki, Francisco Russo, Rubens Ewald Filho e Jean-Claude Bernardet. São críticos e jornalistas especializados de todo o Brasil, com formação acadêmica em cinema e trajetória profissional na crítica especializada. Não há votante ocasional, não há usuário anônimo de plataforma digital. É o que a crítica profissional brasileira, em 2015, considerou o melhor do cinema nacional de todos os tempos.

 

O que a lista revela sobre quem a fez

O resultado é previsível para quem conhece o perfil dos votantes e surpreendente para quem esperava outra coisa. Nove dos dez filmes são obras do Cinema Novo ou de movimentos a ele relacionados, produzidos entre 1931 e 1969. Do top 10 eleito, apenas Cidade de Deus foi produzido após o período de retomada do cinema brasileiro. O único filme do século XXI na lista é o 8º colocado, e sua presença gerou debate: Cidade de Deus foi durante anos satanizado pela crítica ligada ao Cinema Novo como cosmética da fome, e sua entrada no top 10 é uma forma de reabilitação tardia.

A lista é o retrato de uma geração de críticos formada pelo Cinema Novo como experiência fundadora. Glauber Rocha aparece duas vezes no top 5. Nelson Pereira dos Santos e Eduardo Coutinho completam um cânone que valoriza o engajamento político, a experimentação formal e a estética da fome. É uma lista de especialistas que conhecem profundamente a história do cinema brasileiro e que elegeram seus marcos históricos com a seriedade de quem está construindo um cânone, não recomendando filmes para o fim de semana.

 

O que fica de fora e por quê

Central do Brasil, de Walter Salles, que ganhou o Urso de Ouro em Berlim e foi indicado ao Oscar, ficou em 11º. Nenhuma diretora aparece no top 10. O cinema popular brasileiro, de Mazzaropi a Os Trapalhões, está ausente. O cinema de autor contemporâneo, de Kleber Mendonça Filho a Anna Muylaert, começa a aparecer apenas a partir da 15ª posição. Essas ausências dizem tanto sobre a lista quanto as presenças: é uma curadoria que privilegia a ruptura estética e o engajamento político sobre o alcance popular ou a contemporaneidade.

 

TOP 10


1. Limite (1931) — Mário Peixoto


Três náufragos num barco à deriva. Sem diálogo, sem narrativa convencional, sem concessão ao cinema comercial da época. Mário Peixoto tinha 22 anos quando filmou Limite e criou algo que o cinema brasileiro não havia visto e demorou décadas para entender completamente. A montagem rítmica, os enquadramentos impossíveis para 1931, a câmera que pensa antes de registrar: é o filme mais experimental da história do cinema nacional e o único que pode ser chamado de vanguarda sem exagero.




2. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) — Glauber Rocha


Manuel mata o patrão, segue um beato, depois um cangaceiro, depois não há mais para onde ir. Glauber Rocha filmou o sertão como espaço mítico e político simultaneamente, e a câmera na mão, o sol a pino e a trilha de Villa-Lobos transformaram a miséria nordestina em epopeia. É o filme que colocou o Brasil no mapa do cinema mundial e que ainda hoje é o argumento mais poderoso disponível sobre a violência como resposta à opressão.





3. Vidas Secas (1963) — Nelson Pereira dos Santos



Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos sem nome atravessam o sertão fugindo da seca. Nelson Pereira dos Santos adaptou Graciliano Ramos com uma austeridade que honra o escritor e vai além dele: a câmera registra o corpo do vaqueiro com a mesma objetividade com que registra o chão rachado, e o resultado é um dos retratos mais honestos já feitos sobre o que a pobreza faz com a dignidade humana quando não há alternativa visível no horizonte.






4. Cabra Marcado para Morrer (1984) — Eduardo Coutinho

Em 1964, Coutinho filmava a história de um líder camponês assassinado. A ditadura interrompeu as filmagens. Vinte anos depois, ele voltou com o material que sobrou e encontrou os sobreviventes. O que emerge é simultaneamente um documentário sobre a ditadura, um filme sobre a memória e um dos retratos mais devastadores já feitos sobre o que acontece com as pessoas quando a história é proibida de ser contada. Elisabeth Teixeira reconhecendo a si mesma na tela é uma das cenas mais poderosas do cinema brasileiro.




5. Terra em Transe (1967) — Glauber Rocha



Paulo Martins é um poeta e jornalista que se perde entre o populismo e a revolução numa república tropical fictícia que é claramente o Brasil. Glauber Rocha filmou o delírio político com uma câmera em transe permanente, e o resultado é o filme mais desconcertante e mais preciso sobre a esquerda brasileira já produzido. Cinquenta anos depois, cada cena sobre a manipulação das massas e a traição dos intelectuais parece escrita ontem.





6. O Bandido da Luz Vermelha (1968) — Rogério Sganzerla


Um criminoso de subúrbio vira celebridade midiática enquanto a cidade de São Paulo pulsa ao redor. Rogério Sganzerla tinha 22 anos e filmou com câmera na mão, sem recursos e sem pedir licença para ninguém, criando um cinema de estética propositalmente tosca que era ela mesma um argumento político. O Bandido da Luz Vermelha inventou o cinema marginal brasileiro e ainda é o filme que mais radicalmente recusou o bom gosto como valor cinematográfico.





7. São Paulo S/A (1965) — Luís Sérgio Person

Carlos é um executivo jovem na São Paulo do milagre econômico que não consegue se comprometer com nada: nem com o emprego, nem com a mulher, nem com a amante, nem com a cidade que cresce ao redor sem que ele pertença a ela. Person filmou a alienação urbana da classe média paulistana com uma precisão que o neorrealismo italiano havia ensinado e que o Brasil ainda não havia aplicado ao próprio cotidiano. É o filme que inventou o cinema urbano brasileiro.





8. Cidade de Deus (2002) — Fernando Meirelles

Buscapé quer fotografar. Zé Pequeno quer poder. A favela carioca dos anos 60 aos 80 como território de guerra onde o Estado é ausência e a violência é a única lógica disponível. Fernando Meirelles e Kátia Lund filmaram com energia e urgência que transformaram o filme num fenômeno global, e Paulo Lins adaptou o próprio romance com uma honestidade que recusa tanto a romantização quanto o voyeurismo. É o único filme do século XXI no top 10 e o mais visto da lista.





9. O Pagador de Promessas (1962) — Anselmo Duarte

Zé do Burro carrega uma cruz de madeira até Salvador para cumprir uma promessa feita a Santa Bárbara. A Igreja não aceita, o candomblé reivindica, a imprensa transforma em espetáculo. Anselmo Duarte adaptou a peça de Dias Gomes com uma tensão que cresce sem precisar de recursos espetaculares, e a Palma de Ouro em Cannes de 1962 reconheceu o que o Brasil demorou mais para entender: que a história de um homem simples carregando uma cruz é também a história de um país inteiro carregando contradições que não resolveu.




10. Macunaíma (1969) — Joaquim Pedro de Andrade

O herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade nasce preto na selva, vira branco na cidade e percorre o Brasil como alegoria de um país que não sabe quem é. Joaquim Pedro de Andrade filmou com um humor antropofágico que devorava a cultura brasileira e a devolvia transformada, e essa inversão racial não é detalhe: é o argumento central sobre identidade, mobilidade social e a ficção que o Brasil construiu sobre si mesmo. O resultado é o filme mais carnavalesco e mais crítico do Cinema Novo, o único que consegue ser ao mesmo tempo popular e radicalmente político sem abrir mão de nenhum dos dois.



 

A pergunta que fica

Se a mesma votação fosse feita hoje, com um eleitorado mais jovem e mais diverso, o resultado seria diferente? Provavelmente. Pode-se discutir e até contestar se Limite é tudo isso, a ponto de merecer o primeiro lugar. Mas é um marco de experimentação e, como tal, único na produção artística nacional. A defesa do 1º lugar já admite a contestação. Toda lista é um documento do seu tempo e dos seus votantes. Esta é um documento precioso sobre o que a crítica especializada brasileira considerava grandeza cinematográfica em 2015. Dez anos depois, o cinema brasileiro mudou. Os críticos também. Uma nova edição seria outro filme. 

Nota editorial

Esta edição inaugura a série Top 10 — Mas de Quem? da Filmoteca Seu Manolo. A cada edição, um ranking diferente, um perfil de votante diferente e a mesma pergunta: o que essa lista diz sobre quem a fez?