O Fora do Radar não é uma lista de filmes difíceis. É uma lista de filmes que ficaram menores do que são por razões que têm mais a ver com distribuição, política, acaso e invisibilidade estrutural do que com qualidade. Um americano negro que teve que ir para a França para poder fazer cinema. Um cineasta senegalês que criou com trinta mil dólares um dos filmes mais importantes de toda a história do cinema africano. Um húngaro que filmou um noir metafísico em preto e branco que praticamente ninguém viu fora de circuitos de festival. Um coreano que adaptou a tradição do pansori para o cinema e produziu o primeiro filme coreano na competição principal de Cannes. Um nova-iorquino que filmou uma comédia em 1969, não conseguiu distribuição, guardou o filme numa caixa por vinte anos e um dia ouviu por acaso um técnico gargalhando sozinho enquanto fazia uma transferência de vídeo.
Cada um desses filmes tem uma razão específica para ter ficado fora do radar. Nenhuma dessas razões tem a ver com a qualidade do que aparece na tela. São filmes que qualquer cinéfilo com acesso às plataformas certas pode assistir. O que faltava era saber que existiam.
The Plot Against Harry (1969) — Michael Roemer
Harry Plotnick saiu da prisão depois de anos e descobriu que o mundo não guardou o lugar para ele. O que fez a seguir é o que o filme registrou durante vinte anos sem que ninguém soubesse.
O que Michael Roemer filmou
Roemer terminou o filme em 1969, levou a uma pré-estreia, ouviu silêncio e guardou numa caixa. Quase vinte anos depois, transferindo a cópia para VHS, ouviu por acaso um técnico gargalhando na sala ao lado. O técnico estava assistindo ao filme. Roemer submeteu a festivais em 1989 e passou por Cannes, New York Film Festival, Toronto e Sundance. Siskel e Ebert dedicaram um segmento ao filme. O New Yorker publicou uma crítica descrevendo-o como obra-prima negligenciada. Vinte anos tarde, o filme chegou ao público que havia esperado sem saber que estava esperando.
Por que ficou menor do que é
O humor de A Trama Contra Harry é deadpan no sentido mais rigoroso do termo: o filme não avisa quando é engraçado, não tem trilha que sinalize a piada, não tem pausa que indique o momento de rir. Em 1969, o público não soube como processar isso. Em 1989, o mesmo filme foi reconhecido como um dos mais singulares do cinema americano independente. O filme não mudou. O olhar do espectador mudou.
A análise completa e como assistir está no CRÍTICA LIVRE DE CINEMA <== clique
Turner é um soldado negro americano estacionado na França. Recebe três dias de licença em Paris. O que encontra nesse fim de semana o filme não poderia ter filmado nos Estados Unidos.
O que Melvin Van Peebles filmou
Van Peebles foi para Hollywood no final dos anos 1950 querendo ser diretor. Disseram que poderia ser operador de elevador. Foi para Paris, aprendeu francês, escreveu cinco livros em francês, e o quinto se tornou este filme. Filmado em três semanas com orçamento de 200 mil dólares, La Permission foi lançado em Paris em 1967 e chegou ao Festival de San Francisco no mesmo ano, onde venceu o prêmio da crítica representando a França. Van Peebles, americano negro, chegou ao festival como delegado francês. Hollywood o chamou logo depois. O filme está disponível no Criterion Collection em restauração 4K.
Por que ficou fora do radar
Permissão ficou fora do radar porque Van Peebles ficou fora do radar do único lugar que poderia tê-lo distribuído amplamente: Hollywood. A desproporção entre qualidade e visibilidade é o argumento mais preciso que o Fora do Radar poderia ter escolhido.
A análise completa e como assistir está no CRÍTICA LIVRE DE CINEMA <== clique
A Luz da Hiena / Touki Bouki (1973) — Djibril Diop Mambéty
Mory e Anta vivem em Dakar e querem ir para a França. O que está entre eles e Paris é o argumento do filme.
O que Djibril Diop Mambéty filmou
Touki Bouki foi filmado com um orçamento de 30 mil dólares, parte obtido do governo senegalês. Mambéty não tinha formação formal em cinema. O filme foi apresentado no Festival de Cannes de 1973, onde venceu o Prêmio da Crítica Internacional. Depois disso, praticamente desapareceu por décadas. Foi restaurado em 2008 pela Cineteca di Bologna, pelo World Cinema Foundation de Martin Scorsese, e está na Criterion Collection. Na Sight and Sound 2022 foi classificado como o 66º maior filme de todos os tempos.
Por que ficou fora do radar
Touki Bouki ficou fora do radar porque o cinema africano ficou fora do radar. Um filme classificado entre os 70 maiores de todos os tempos pela Sight and Sound com menos de 5.000 avaliações no IMDB diz tudo sobre como o mundo distribuiu atenção cinematográfica ao longo do século XX. O filme sempre esteve lá. O olhar é que nunca chegou até ele.
Chunhyang, Amor Proibido (2000) — Im Kwon-taek
Mongryong é filho de um governador. Chunhyang é filha de uma cortesã. Se casam em segredo. O que vem depois o cantor já estava contando antes de o filme começar.
O que Im Kwon-taek filmou
Chunhyang é baseado na performance do pansori Chunhyangga pelo mestre cantor Cho Sang-hyun. Cada capítulo da narrativa é paralelo aos versos cantados, com diálogos falados entrelaçados à estrutura musical. Foi o primeiro filme coreano convidado para a seção de competição do Festival de Cannes. Im Kwon-taek realizou mais de cem filmes ao longo de cinco décadas e venceu o prêmio de Melhor Direção em Cannes em 2002. Chunhyang é considerado um dos seus maiores trabalhos.
Por que ficou fora do radar
Chunhyang ficou fora do radar porque usa uma forma narrativa completamente desconhecida fora da Coreia: o pansori, uma tradição de performance musical vocal que existe há séculos e que nunca encontrou distribuição internacional consistente. O filme que resultou dessa escolha formal é uma das experiências cinematográficas mais singulares do cinema asiático dos anos 2000 e praticamente ninguém no Brasil sabe que existe.
A análise completa e como assistir está no CRÍTICA LIVRE DE CINEMA <== clique
Szürkület / Twilight (1990) — György Fehér
Três meninas foram assassinadas numa aldeia húngara. O único suspeito se suicida antes de ser preso. O detetive investigador não consegue abandonar o caso.
O que György Fehér filmou
Fehér fez apenas dois longas-metragens ao longo da carreira. Szürkület foi restaurado em 4K pelo Instituto Nacional de Cinema da Hungria e estreou na seção Berlinale Classics do Festival de Berlim em 2023. O filme teve sua estreia mundial na competição do Festival de Locarno em 1990, onde venceu o Bronze Leopard pela cinematografia de Miklós Gurbán. Depois disso, praticamente desapareceu. Tem 234 avaliações no IMDB. A Variety o descreveu como uma obra-prima húngara há muito tempo invisível.
Por que ficou fora do radar
Szürkület ficou fora do radar porque é um filme que recusa todas as concessões ao espectador: ritmo lento, atmosfera densa, sem resolução narrativa convencional. O Bronze Leopard em Locarno reconheceu a qualidade. O mercado não soube o que fazer com ela. O resultado é um dos noirs mais singulares do cinema europeu dos anos 1990.
A análise completa e como assistir está no CRÍTICA LIVRE DE CINEMA <== clique
Se você chegou até aqui, você é cinéfilo de verdade. Tenha acesso a estes e muitos outros filmes participando do nosso grupo de Whatsapp:
https://chat.whatsapp.com/KrL9wtZNzyq2JIU2DfdXmj