Existe um tipo específico de invisibilidade cinematográfica que não tem a ver com qualidade. Tem a ver com origem, com distribuição, com o momento histórico em que um filme foi lançado e com os interesses que decidem o que chega a quem.

Esta segunda edição do Fora do Radar reúne cinco filmes que ficaram fora do circuito brasileiro por razões que não resistem a uma análise honesta. Um foi feito num país cujo cinema o mundo decidiu ignorar por décadas. Outro foi lançado em plena ditadura e passou pela censura porque os censores não entenderam o que estavam vendo. Um terceiro critica com humor o sistema que o financiou, numa Cuba de 1966 que produzia cinema extraordinário enquanto o mundo olhava para outro lado. Um quarto percorre oitenta anos de uma família italiana numa única sala de estar e parece mais contemporâneo do que a maioria dos lançamentos recentes. O quinto filmou a Revolução Cultural chinesa com uma humanidade que o governo tentou proibir e que o Ocidente simplesmente não foi ver.

Cinco países. Seis décadas de cinema. Zero concessões ao gosto fácil.

O que os une é a qualidade que o radar não captou e que a análise de cada um tenta tornar visível. Cada filme tem texto completo no Crítica Livre de Cinema. A sugestão é ler antes de assistir, ou depois, mas ler.


Exílio no Iraque (2002) Gomgashtei dar Aragh - 1 h 40 min
Dir: Bahman Ghobadi

Um road movie filmado numa zona de guerra. A música como único passaporte. O humor como única forma de continuar.






Quando o Amor é Cruel (1966) Incompreso (Vita col figlio) - 1 h 44 min
Dir: Luigi Comencini

Comencini não usa um único truque para fazer você chorar. Não precisa. A realidade já é suficiente.







Fu rong zhen (1987) (HIBISCUS TOWN) - 2 h 44 min
Dir: Jin Xie

Foi censurado na China. Ignorado no Ocidente. Tem 8.2 no IMDb. Alguém precisa explicar como isso é possível.







Tempo de Revanche (1981) Tiempo de revancha - 1 h 52 min
Dir: Adolfo Aristarain

Aristarain filmou a ditadura argentina sem mostrar um único militar. Federico Luppi fez o resto com o silêncio.







A Morte de um Burocrata (1966) La muerte de un burócrata - 1 h 25 min
Dir: Tomás Gutiérrez Alea

Um operário cubano exemplar foi enterrado com sua carteira de trabalho. A viúva não pode receber a pensão sem o documento. Kafka teria escrito isso como tragédia. Alea filmou como comédia. Os dois estão certos.