Existe uma pergunta que as crianças fazem e os adultos respondem sem pensar: o que você quer ser quando crescer? A pergunta não é sobre caráter, sobre valores, sobre o tipo de pessoa que se quer tornar. É sobre trabalho. E essa confusão entre ser e fazer, instalada tão cedo, é o ponto de partida de tudo que esta mostra examina.

O trabalho contemporâneo não é apenas uma atividade econômica. É o território onde a identidade se constrói e se desfaz, onde as hierarquias mais antigas da humanidade, poder, status, pertencimento, exclusão, encontram formas novas de se exercer com vocabulário corporativo e métricas de desempenho. O escritório, a fábrica, o hospital, o tribunal, o set de filmagem: cada ambiente profissional é um sistema com suas próprias regras, suas próprias lealdades exigidas e suas próprias formas específicas de destruir quem não as cumpre.

O cinema percebeu isso cedo. Desde que havia histórias para contar, havia histórias sobre o que o trabalho faz com as pessoas. Chaplin filmou a linha de produção antes que alguém tivesse vocabulário para chamar aquilo de alienação. Billy Wilder filmou o escritório como território de ambição, solidão e pequenas corrupções cotidianas. O que esta mostra reúne é o conjunto de filmes que examinaram esse território com mais honestidade, mais precisão e mais disposição de não oferecer consolo fácil.

Os dez blocos da mostra percorrem o drama no trabalho em toda a sua extensão. Começam onde o poder é mais visível, nas relações entre quem manda e quem obedece, e chegam onde o poder é mais invisível, na obsolescência silenciosa de quem o mercado decide que não precisa mais. Entre esses dois extremos, a mostra examina o que acontece entre iguais quando a competição transforma colegas em adversários, o que a pressão por desempenho faz com a saúde mental de quem não tem vocabulário para nomear o que está sentindo, o preço que o sucesso cobra de quem chega lá e de quem ficou para trás, os conflitos éticos que o ambiente profissional produz cotidianamente sem jamais reconhecer como éticos, a lógica predatória que recompensa resultados sem questionar métodos, o amor que nasce dentro de hierarquias e o que ele faz com as duas, a identidade que o trabalho coloniza completamente e o colapso que acontece quando essa identidade desmorona, a lealdade que as instituições exigem e raramente retribuem, e a experiência que o mercado transforma em peso antes que a pessoa perceba que estava sendo pesada.

O que conecta esses dez blocos não é um argumento único sobre o trabalho mas uma série de perguntas que os filmes fazem sem responder completamente. Até onde você vai para manter o emprego? O que você está disposto a fazer para subir? O que acontece com quem não está disposto a fazer? Quando a lealdade à instituição se torna cumplicidade com o que a instituição faz de errado? O que resta de uma pessoa quando o trabalho que definia sua identidade desaparece?

Essas perguntas não têm respostas simples porque o trabalho não tem. Tem negociações permanentes, concessões que se acumulam, linhas que se cruzam gradualmente até que a pessoa não sabe mais onde estava a linha original. Os filmes desta mostra habitam esse território com precisão e sem julgamento fácil, porque entenderam que julgar seria mais confortável e menos honesto do que simplesmente mostrar o que acontece quando os incentivos são suficientemente grandes e os medos suficientemente reais.

Uma última observação antes dos filmes: drama no trabalho não é gênero cinematográfico. É território. Os filmes desta mostra vêm de décadas diferentes, países diferentes, linguagens cinematográficas diferentes. Alguns são thrillers, alguns são dramas intimistas, alguns são comédias negras que riem do que não tem graça nenhuma. O que têm em comum é que levaram a sério a ideia de que o ambiente profissional é um dos lugares onde a natureza humana se revela com mais clareza, precisamente porque as pessoas dentro dele acreditam que estão sendo profissionais e portanto neutras, objetivas, racionais. Os filmes sabem que não estão. E essa é a primeira coisa que a mostra tem a dizer.





10 BLOCOS. 20 FILMES. 10 PAÍSES

BLOCO 1 — PODER E HIERARQUIA 

O poder hierárquico é o ponto de partida desta mostra porque é a estrutura mais visível do ambiente profissional. Toda organização tem quem manda e quem obedece, e o que parece uma divisão funcional esconde algo mais complexo: a posição transforma quem a ocupa. Não de forma previsível, não da mesma forma em todo mundo, mas transforma. O que os dois filmes deste bloco examinam, separados por cinco décadas e por ambientes completamente diferentes, é o mecanismo dessa transformação. Um mostra o que acontece quando pessoas comuns recebem autoridade sobre outras pessoas comuns sem limite e sem consequência. O outro mostra como o poder institucional se sustenta não pela força mas pela economia da ameaça implícita, aquela que não precisa ser verbalizada porque já foi completamente internalizada por quem está embaixo. Nos dois casos, a pergunta não é quem são essas pessoas. É o que a posição fez com elas.


A Experiência (2001) Das Experiment - 2 h
Dir: Oliver Hirschbiegel

A posição não revela quem você é. Revela quem você se permite ser.

Das Experiment é baseado no experimento de Stanford de 1971, em que voluntários foram divididos em guardas e prisioneiros numa prisão simulada e o experimento foi interrompido em seis dias porque o que estava acontecendo tinha deixado de ser simulação. Hirschbiegel pegou esse material e filmou não como documento histórico mas como thriller psicológico sobre o que acontece quando uma pessoa recebe autoridade sobre outra sem treinamento, sem limite e sem consequência real. O resultado é um dos filmes mais perturbadores sobre poder já feitos precisamente porque seus personagens não são monstros: são pessoas comuns que a posição transforma.

O primeiro bloco da mostra começa aqui porque Das Experiment faz a pergunta mais fundamental que o drama no trabalho pode fazer: o poder corrompe quem o recebe ou revela quem já estava lá? A resposta que o filme oferece é mais incômoda do que qualquer das duas opções simples.

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O Diabo Veste Prada (2006) The Devil Wears Prada - 1 h 49 min
Dir: David Frankel

Miranda Priestly não grita. Não precisa. O poder real nunca precisa levantar a voz. 

A hierarquia como performance

Miranda Priestly dirige a revista de moda mais influente do mundo com uma contenção que é ela mesma uma forma de violência: nunca grita, raramente explica, frequentemente olha. O que Frankel filma com uma precisão que a comédia leve que o filme parece prometer não antecipa é o mecanismo pelo qual o poder hierárquico se mantém não pela força mas pela economia: Miranda não precisa ameaçar porque todos ao redor já interiorizaram as consequências de não corresponder ao que ela espera. Andy chega como estranha ao sistema e vai sendo absorvida por ele, e o filme usa essa absorção para examinar o que acontece com quem decide subir dentro de uma hierarquia que foi construída para servir a quem está no topo.

O segundo filme do bloco coloca ao lado do horror clássico de Das Experiment o horror cotidiano e reconhecível de qualquer ambiente profissional com um líder que usa a posição como instrumento de controle total. Os dois juntos mostram que a diferença entre a prisão simulada e a redação de moda é menor do que qualquer um dos dois ambientes gostaria de admitir.

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BLOCO 2 — RIVALIDADE E DISPUTA DE PODER

O poder entre iguais é mais difícil de nomear do que o poder hierárquico precisamente porque não tem nome oficial dentro das organizações. Não existe cargo de rival, não existe protocolo para a traição entre colegas, não existe vocabulário corporativo para o que acontece quando duas pessoas no mesmo nível descobrem que o espaço disponível para uma delas é o espaço que a outra está ocupando. Os dois filmes deste bloco examinam esse território por caminhos diferentes: um no mundo do teatro americano dos anos 1950, onde a competição entre atrizes tem a crueldade particular de quem precisa ocupar o mesmo palco para existir; o outro no Wall Street dos anos 1980, onde o sistema criou escassez artificial de posições e depois observou o que essa escassez produzia entre mulheres que poderiam ter sido aliadas. Em ambos os casos, a rivalidade não é um desvio de caráter. É a resposta lógica de pessoas inteligentes a um sistema que foi projetado para que alguém perdesse.


A Malvada (1950) All About Eve - 2 h 18 min
Dir: Joseph L. Mankiewicz

Eve admira Anne com uma devoção que parece amor e funciona como predação.

A admiração como estratégia

A Malvada examina o que acontece quando dois talentos disputam o mesmo espaço e um deles ainda não chegou lá. Eve Harrington aparece nos bastidores do teatro como fã incondicional de Margo Channing, a atriz mais celebrada do palco americano, e vai construindo sua presença no mundo de Margo com uma paciência e uma inteligência que o filme leva quase uma hora para revelar completamente. Mankiewicz filmou em 1950 o retrato mais preciso do que acontece quando a admiração e a ambição são a mesma coisa: Eve não mente para Margo porque a odeia. Mente porque precisa dela para chegar onde quer chegar, e quando não precisar mais, vai parar de precisar.

O segundo bloco da mostra começa com All About Eve porque nenhum filme examinou com mais precisão o mecanismo da traição entre iguais no ambiente profissional. Margo e Eve são duas atrizes no mesmo campo, e o que o filme examina é o que acontece quando uma decide que o sucesso da outra é um obstáculo para o próprio sucesso.

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Uma Secretária de Futuro (1988) Working Girl - 1 h 53 min
Dir: Mike Nichols

Tess McGill teve a ideia. Katherine Parker roubou a ideia. O sistema estava do lado de Katherine.

A rivalidade que o sistema cria

Working Girl coloca duas mulheres no mesmo território profissional e examina o que acontece quando uma rouba da outra o único capital real que a outra tinha: uma ideia. Tess McGill é secretária com ambição e inteligência que o ambiente não foi projetado para reconhecer. Katherine Parker é executiva que entendeu que o sistema recompensa quem parece ter o poder de quem está no topo, e que ideias de secretárias podem ser apresentadas como ideias de executivas sem que ninguém pergunte de onde vieram. Mike Nichols filma essa dinâmica com uma consciência de que a rivalidade entre Tess e Katherine não é pessoal: é o produto lógico de um sistema que criou a escassez de posições para mulheres e depois observa o que essa escassez produz.

O segundo filme do bloco coloca ao lado da traição aristocrática do teatro de Mankiewicz a traição corporativa do Wall Street dos anos 1980, e os dois juntos mostram que o mecanismo da rivalidade entre iguais funciona da mesma forma independentemente do ambiente: alguém que está em posição ligeiramente superior usa essa posição para eliminar quem está chegando.

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BLOCO 3 — ANSIEDADE E MEDO DO FRACASSO

A pressão por desempenho e o colapso emocional que o ambiente profissional produz. O trabalho contemporâneo instalou uma forma específica de ansiedade que as gerações anteriores não tinham vocabulário para nomear: o medo de não ser suficiente para o que o sistema exige, numa época em que o sistema exige cada vez mais e oferece cada vez menos em troca. Os dois filmes deste bloco examinam esse mecanismo por dois caminhos completamente diferentes, separados por oitenta e cinco anos de história do cinema mas unidos pelo mesmo diagnóstico: quando o sistema humano e o sistema profissional entram em colisão, é o humano que paga o preço.


Tempos Modernos (1936) Modern Times - 1 h 27 min
Dir: Charles Chaplin

A linha de montagem não para. O corpo para. O sistema não percebe a diferença. 

A máquina e o homem

Tempos Modernos foi lançado em 1936, quando o cinema sonoro já havia varrido o cinema mudo quase completamente, e Chaplin insistiu no silêncio como posição política: num mundo em que as vozes que chegam de alto-falantes são as vozes do controle, do patrão, do sistema, o Vagabundo permanece em silêncio porque o silêncio é a única forma de resistência que lhe resta. O que Chaplin filmou na esteira de produção do início do filme é o retrato mais preciso que o cinema já produziu sobre o colapso emocional derivado da pressão por desempenho: um homem cujo trabalho é apertar parafusos não consegue parar de apertar parafusos mesmo quando a esteira para, mesmo quando vai ao banheiro, mesmo quando deixa a fábrica. O corpo internalizou o ritmo da máquina e não encontra a saída.

O primeiro filme do bloco está aqui porque antecipa com oitenta anos de antecedência o que a psicologia do trabalho contemporânea chama de burnout: o esgotamento que acontece quando o sistema exige mais do que o organismo humano consegue sustentar por tempo suficiente para que o organismo simplesmente pare de funcionar dentro do sistema. A sequência da esteira não precisa de atualização. Chegou atualizada.

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O Chef (2021) Boiling Point - 1 h 32 min
Dir: Philip Barantini

Um serviço de jantar. Uma noite. Um chef que vai perdendo o controle em tempo real. A câmera não corta. 

A ansiedade em tempo real

Boiling Point é filmado em plano sequência único de 92 minutos, sem um único corte, numa cozinha de restaurante londrino numa noite de sexta-feira de dezembro. A escolha formal não é exibicionismo técnico: é o argumento central do filme materializado em imagem. Não há corte porque na experiência de um chef que está perdendo o controle não há corte, não há pausa, não há momento de respiro entre um problema e o próximo. A câmera acompanha Andy Jones através da cozinha com a mesma urgência crescente com que Andy tenta segurar o que está ficando grande demais para ser segurado por uma pessoa só.

O segundo filme do bloco coloca ao lado do colapso físico e mecânico de Chaplin o colapso emocional e gerencial do chef contemporâneo, e os dois juntos mostram que o mecanismo da ansiedade de desempenho não mudou em oitenta e cinco anos: o sistema exige um ritmo que o organismo humano não consegue sustentar indefinidamente, e quando o organismo começa a ceder, o sistema não para para esperar. A diferença é que a fábrica de Chaplin era uma linha de montagem visível, e a cozinha de Barantini é um ambiente que o mundo externo experimenta como elegância e prazer enquanto o que acontece dentro dele é outra coisa completamente.

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BLOCO 4 - O PREÇO DO SUCESSO

O que se perde no caminho. Os custos morais e relacionais de chegar onde se queria chegar. O sucesso profissional raramente chega sozinho: traz consigo uma conta que o sistema nunca apresenta antecipadamente e que so se revela quando ja foi paga. Os dois filmes deste bloco examinam esse custo por dois caminhos opostos: um personagem que sente cada centimetro do que o sucesso esta custando e nao consegue parar, e outro que nao para nunca o suficiente para sentir nada. Os dois juntos mostram que o preco do sucesso existe independentemente de quem esta disposto a reconhece-lo.


O Lobo de Wall Street (2013) The Wolf of Wall Street - 3 h
Dir: Martin Scorsese

Jordan Belfort ganhou tudo. Nunca parou o suficiente para perceber o que estava perdendo.

A velocidade como anestesia

O Lobo de Wall Street tem 180 minutos e a sensação de que nenhum deles dura o suficiente para que o espectador ou o protagonista respire. Scorsese filma a ascensão e queda de Jordan Belfort com uma energia que replica a lógica do próprio personagem: mais rápido, mais alto, mais tudo, até que o sistema que sustentava o ritmo simplesmente para. O que Belfort perde no caminho, relacionamentos, integridade, a capacidade de sentir prazer sem substância, não é sentido como perda porque o ritmo nunca permite que seja. Essa á a observação mais precisa do filme sobre o preço do sucesso: quando se vai rápido o suficiente, o custo fica para trás e só aparece quando a velocidade finalmente cessa.

O primeiro filme do bloco está aqui porque Scorsese filmou o caso extremo, o sucesso como vício, a conquista como fuga da necessidade de sentir o que a conquista está custando, e o caso extremo revela o mecanismo que opera em versões menos extremas em qualquer ambiente profissional competitivo.

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O Aviador (2004) The Aviator - 2 h 50 min
Dir: Martin Scorsese

Howard Hughes conquistou tudo que a aviacao e o cinema tinham para oferecer. O que veio junto nao estava no contrato. 

O sucesso que consome quem o alcança

O Aviador examina a vida de Howard Hughes, um dos homens mais bem-sucedidos do século XX em dois campos distintos simultaneamente, e filma com precisão crescente o que esse sucesso produz em paralelo: um transtorno obsessivo-compulsivo que avança a medida que as conquistas avançam, como se cada vitória profissional liberasse espaço para que a obsessão ocupasse. Scorsese não simplifica a relação entre o sucesso e a doença de Hughes: nao sugere que um causou o outro, mas filma as duas trajetórias em paralelo com a consciência de que algo no tipo de personalidade que produz o sucesso extraordinário de Hughes também é o que não consegue encontrar descanso suficiente para se regular.

O segundo filme do bloco coloca ao lado do caso de Belfort, que nao sente o preço porque não para para sentir, o caso de Hughes, que sente cada centimetro do que o sucesso está custando e não consegue parar mesmo assim. A combinação é o argumento mais completo que o bloco pode fazer: o preço do sucesso existe independentemente de quem está disposto a reconhecê-lo, e a capacidade de reconhecê-lo não protege de pagá-lo.

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BLOCO 5 - CONFLITOS ÉTICOS

Quando o que o trabalho exige colide com o que a pessoa acredita ser certo. O ambiente profissional produz conflitos éticos cotidianamente sem jamais reconhecê-los como éticos: são decisões sobre o que reportar e o que omitir, sobre quem proteger e quem expor, sobre onde a lealdade institucional termina e a responsabilidade moral começa. Os dois filmes deste bloco examinam esse território por dois ângulos diferentes: uma professora que tenta fazer a coisa certa dentro de um sistema que não foi projetado para a coisa certa, e um fixador corporativo que passou a vida inteira sendo cúmplice do sistema e precisa decidir se vai continuar sendo.

A Sala dos Professores (2023) Das Lehrerzimmer - 1 h 38 min
Dir: Ilker Çatak

Carla acreditava que fazer a coisa certa era simples. O sistema escolar ensinou o contrario.

A ética como problema prático

A Sala dos Professores começa com uma situação aparentemente simples: furtos estão acontecendo na escola e a professora Carla decide investigar por conta própria, acreditando que pode resolver o problema de forma justa sem recorrer aos mecanismos institucionais que considera inadequados. O que Ilker Catak filma nas próximas noventa e oito minutos e o que acontece quando uma pessoa com principios claros e boas intencoes colide com um sistema que não foi projetado para principios claros mas para procedimentos, hierarquias e a preservacao da própria reputação institucional acima de qualquer outro valor.

Carla não e ingênua: e competente, e determinada, e genuinamente comprometida com o que acredita ser justo. E exatamente isso que o sistema não consegue absorver. O primeiro filme do bloco está aqui porque Catak filmou o conflito ético interno, aquele em que a pessoa sabe o que acredita ser certo e descobre que o sistema em que trabalha não compartilha dessa crenca, com uma precisão que raramente aparece no cinema sobre ambiente escolar.

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Conduta de Risco (2007) Michael Clayton - 1 h 59 min
Dir: Tony Gilroy

Michael Clayton passou quinze anos resolvendo os problemas sujos das outras pessoas. Até encontrar um problema que não conseguia resolver.

O fixador e o ponto de não retorno

Michael Clayton é um fixador corporativo num escritório de advocacia de Nova York: o homem que aparece quando algo deu errado e que tem a função de fazer o problema desaparecer antes que se torne público. É bom no que faz, e acredita que o que faz é necessario, e há quinze anos encontrou uma forma de habitar o espaço moral cinza do seu trabalho sem que isso o destrua completamente. Até que um colega advogado, num caso de defesa de uma corporação química acusada de contaminação, tem uma quebra psicológica e começa a agir contra os interesses do cliente que há dezesseis anos estão defendendo.

O segundo filme do bloco coloca, ao lado da professora que tenta fazer a coisa certa e é destruída pelo sistema, o fixador que passou a vida inteira ajudando o sistema a evitar a coisa certa e que precisa decidir o que fazer quando não consegue mais. Os dois filmes cobrem os dois vetores do conflito ético no ambiente profissional: quem entra no sistema com princípios e descobre o custo de mantê-los, e quem entrou sem questionar os princípios do sistema e descobre tarde demais o que isso custou.

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BLOCO 6 - BUSCA DE RESULTADOS A QUALQUER CUSTO

A lógica predatória que recompensa o resultado sem questionar o método. Ha ambientes profissionais em que a pergunta sobre como o resultado foi obtido nunca é feita porque o sistema que faz a pergunta é o mesmo sistema que se beneficia da resposta. Os dois filmes deste bloco examinam esse território por dois caminhos diferentes: uma sala de vendas onde a crueldade é o método oficial e um escritório de assessoria de imprensa onde a crueldade é o produto que está sendo vendido. Em ambos os casos o sistema recompensa o resultado e ignora o custo humano de produzí-lo.

O Sucesso a Qualquer Preço (1992) Glengarry Glen Ross - 1 h 40 min
Dir: James Foley

Sempre esteja fechando. Os que não fecham não existem.

A sala de vendas como campo de batalha

Glengarry Glen Ross é baseado na peça de David Mamet e se passa em menos de 24 horas numa agencia imobiliária de Chicago onde corretores competem por listas de clientes potenciais num sistema projetado para produzir pressão máxima e eliminar quem não suporta essa pressão. A cena de abertura, em que um executivo chega da matriz para informar que apenas os dois primeiros colocados no ranking de vendas vão manter o emprego e os demais serão demitidos, estabelece o território do filme com uma clareza brutal: o que pessoas fazem quando o sistema as coloca numa situação em que a sobrevivência profissional depende de eliminar os colegas.

O primeiro filme do bloco está aqui porque Mamet e Foley filmaram o caso mais puro da lógica de resultados a qualquer custo: um sistema que não apenas permite mas exige comportamento predatorio, que recompensa quem é capaz de vender a qualquer pessoa qualquer coisa e descarta quem tem escrúpulos sobre o que está vendendo ou para quem. A linguagem do filme, os diálogos em que cada palavra é simultaneamente informação e ameaça, é ela mesma um instrumento de agressão que replica o ambiente que está descrevendo.

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A Embriaguez do Sucesso (1957) Sweet Smell of Success - 1 h 36 min
Dir: Alexander Mackendrick

J.J. Hunsecker decide o que Nova York lê amanhã. Sidney Falco decide o que J.J. Hunsecker precisa saber hoje.

O poder da midia como produto

Sweet Smell of Success é ambientado no mundo da imprensa de Nova York dos anos 1950, onde o colunista J.J. Hunsecker controla o que aparece nos jornais e onde o assessor de imprensa Sidney Falco vende acesso a essa influência para clientes que pagam pelo privilégio de serem mencionados ou pelo privilégio de não verem seus inimigos mencionados. Mackendrick filma esse mundo com uma iluminaçãoo noturna de Nova York que é ao mesmo tempo glamourosa e ameaçadora, e o que o filme examina é a lógica predatória de um ambiente em que a informação é moeda e o acesso a quem a controla é o produto mais valioso disponível.

O segundo filme do bloco coloca ao lado da sala de vendas de Mamet o escritório de assessoria de imprensa de Mackendrick, e os dois juntos mostram que a busca de resultados a qualquer custo opera da mesma forma independentemente do produto que está sendo vendido: o que muda é a embalagem, não o mecanismo. Em ambos os casos o sistema recompensa quem é capaz de obter o resultado sem fazer perguntas sobre o método, e pune quem tem escrúpulos sobre o que o resultado exigiu.

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BLOCO 7 - RELAÇÕES AMOROSAS COM CONFLITO DE INTERESSE

O amor dentro de hierarquias e o que ele faz com as pessoas e com o poder. O ambiente profissional cria condições específicas para o surgimento de relações amorosas: pessoas que passam horas juntas sob pressão, que compartilham objetivos e crises, que se conhecem de formas que os relacionamentos externos raramente permitem. Mas o mesmo ambiente que cria essas condições também cria hierarquias, competições e conflitos de interesse que o amor não resolve e frequentemente complica. Os dois filmes deste bloco examinam o amor dentro do trabalho por dois caminhos diferentes: uma companhia de teatro durante a ocupação nazista, e dois analistas financeiros cujo relacionamento secreto implode quando a hierarquia entre eles muda.

O Último Metrô (1980) Le dernier métro - 2 h 11 min
Dir: François Truffaut

Um teatro em Paris ocupada. Um marido escondido no porão. Uma esposa que dirige a companhia. E um ator que chega no momento errado.

O amor sob ocupação

O Último Metrô é ambientado em Paris durante a ocupação nazista de 1942, numa companhia de teatro cujo diretor judeu, Lucas Steiner, se escondeu no porão do próprio teatro enquanto sua esposa Marion assume a direção das produções. Quando o ator Bernard Granger chega para o elenco, o triângulo que se forma entre ele, Marion e o marido que ela visita no porão todas as noites e o território que Truffaut usa para examinar o que o amor faz com as hierarquias profissionais e o que as hierarquias profissionais fazem com o amor.

O primeiro filme do bloco está aqui porque Truffaut filmou o amor dentro do trabalho com uma complexidade que recusa a simplicidade do triângulo romântico convencional: Marion não escolhe entre o marido e o amante porque o sistema que as circunda, a ocupação, o teatro, a necessidade de sobrevivência, não oferece essa escolha de forma clara. O que o filme examina é o que acontece com o amor quando o contexto profissional e histórico é suficientemente pressurizado para que as fronteiras entre dever e desejo, lealdade e traição, profissionalismo e intimidade se tornem impossíveis de manter separadas.

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Jogo Justo (2023) Fair Play - 1 h 53 min
Dir: Chloe Domont

Emily e Luke trabalhavam juntos e se amavam em segredo. Até que ela foi promovida e ele não.

A promoção que mudou tudo

Fair Play começa com Emily e Luke num relacionamento secreto numa firma de hedge fund de Manhattan onde o regulamento proibe relacionamentos entre funcionários. Quando Emily recebe a promoção que Luke esperava receber, o que era amor secreto dentro de uma hierarquia estável torna-se algo mais complicado: Luke precisa reportar a Emily, Emily precisa gerenciar Luke como subordinado, e os dois precisam continuar escondendo o relacionamento de um ambiente que já é suficientemente pressurizado sem essa camada adicional.

O segundo filme do bloco coloca ao lado do amor dentro da ocupação nazista o amor dentro do capitalismo financeiro contemporâneo, e a comparação é mais reveladora do que parece: em ambos os casos o amor existe dentro de um sistema que não foi projetado para ele, e o sistema pune o amor não por moralismo mas porque o amor complica as hierarquias que o sistema precisa que sejam claras. A diferença e que o sistema de Truffaut era uma ocupação militar e o sistema de Domont e uma firma de investimentos, e que o tipo de violência que cada um produz é diferente mas o mecanismo e o mesmo.

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BLOCO 8 - IDENTIDADE E TRABALHO

Quando a carreira vira quem a pessoa é. E o que acontece quando essa identidade desmorona. O trabalho contemporâneo não é apenas o que as pessoas fazem: frequentemente é o que as pessoas são, ou acreditam ser, ou precisam ser para que o mundo ao redor as reconheça como existentes. Essa fusão entre identidade e ocupação é uma das caracteristicas mais específicas do trabalho moderno, e os dois filmes deste bloco examinam o que acontece quando essa fusão é ameaçada ou destruída: um homem que construiu uma identidade ao redor da mobilidade e da ausência e que descobre que construiu uma prisão, e um homem cuja identidade de profeta e pregador é desafiada até o ponto de colapso.

Amor Sem Escalas (2009) Up in the Air - 1 h 49 min
Dir: Jason Reitman

Ryan Bingham viajava 322 dias por ano e chamava isso de liberdade. O filme levou 109 minutos para provar que era outra coisa.

A identidade portátil

Ryan Bingham tem um trabalho que seria o pesadelo da maioria das pessoas e que ele transformou numa filosofia de vida: viaja pelo país demitindo pessoas em nome das empresas que não tem coragem de fazer isso sozinhas, acumula milhas de avião como outros acumulam relacionamentos, e desenvolveu um sistema de pensamento inteiro sobre as vantagens de não ter raízes, não ter conexões e não ter nada que não caiba numa mochila. Reitman filma a vida de Ryan com uma fluência que replica a lógica do personagem: tudo se move, tudo é eficiente, tudo está sob controle.

O primeiro filme do bloco está aqui porque Ryan Bingham é o caso mais extremo da identidade construída ao redor de uma forma específica de trabalhar: ele não apenas faz o que faz, ele acredita que o que faz o tornou melhor, mais livre, mais consciente do que as pessoas com raízes e conexões. O que Reitman examina é o que acontece quando essa crença encontra evidência contrária que não pode ser ignorada, e o que o personagem faz com a descoberta de que a liberdade que construiu tinha paredes que ele não havia visto.

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Sangue Negro (2007) There Will Be Blood - 2 h 38 min
Dir: Paul Thomas Anderson

Daniel Plainview extraiu petróleo da terra californiana durante trinta anos. O que foi extraído junto não estava no contrato.

A identidade como projeto total

Daniel Plainview não tem trabalho: é o trabalho. Cada decisão que toma, cada relacionamento que forma ou desfaz, cada cidade que chega e cada cidade que deixa é determinado pelo que o projeto de extrair petróleo exige. Anderson filma a construção dessa identidade ao longo de três décadas com uma paciência que replica a paciência do próprio personagem: Plainview não tem pressa porque não tem nada além do projeto, e o projeto não tem prazo porque é a própria vida de Plainview.

O segundo filme do bloco coloca ao lado da identidade movel de Ryan Bingham a identidade fixa de Daniel Plainview, e a comparação revela que o mecanismo é o mesmo: os dois construiram identidades que não existem fora do trabalho que as sustenta, e os dois pagam preços que o trabalho não havia prometido cobrar mas que cobra de qualquer forma. A diferença é que Ryan descobre a existência das paredes ainda em tempo de fazer algo com essa descoberta, e Plainview nunca descobre porque nunca para o suficiente para procurar.

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BLOCO 9 - LEALDADE E TRAIÇÃO INSTITUCIONAL

O funcionário que entregou tudo e foi descartado. A organização como personagem moral. As instituições exigem lealdade como condição de pertencimento e raramente oferecem lealdade como condição de continuidade. O trabalhador que entrega anos, décadas, a melhor parte da energia e da vida a uma organização descobre frequentemente que a lealdade era um contrato unilateral: a organização exigia enquanto o trabalhador servia e dispensava quando o trabalhador se tornava incômodo ou desnecessário. Os dois filmes deste bloco examinam esse mecanismo por dois caminhos diferentes: um executivo da indústria do tabaco que foi descartado depois de anos de lealdade e decidiu revelar o que sabia, e uma trabalhadora que a empresa colocou em competição com os próprios colegas pela sobrevivência.

O Informante (1999) The Insider - 2 h 37 min
Dir: Michael Mann

Jeffrey Wigand foi leal a Brown and Williamson durante sete anos. A empresa foi leal a ele enquanto ele servia. Quando deixou de servir, a empresa destruiu o que pode.

A lealdade e seus limites

O Informante é baseado na história real de Jeffrey Wigand, ex-vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento da Brown and Williamson, uma das maiores fabricantes de cigarros dos Estados Unidos. Wigand foi demitido em 1993 e assinou um acordo de confidencialidade que o impedia de revelar o que sabia sobre as práticas da empresa. Quando o produtor do programa 60 Minutes o contatou, Wigand relutou por anos antes de decidir falar, e a decisão de falar custou o que restava da vida que havia construído dentro e ao redor da empresa que o havia demitido.

O primeiro filme do bloco está aqui porque O Informante examina com precisão a questão que define o bloco: quem foi mais desleal? A empresa que demitiu Wigand e tentou destruí-lo depois que decidiu falar, ou Wigand que revelou segredos corporativos protegidos por um acordo que havia assinado? Mann filma essa ambiguidade sem resolvê-la porque ela não tem resolução simples, e é exatamente essa complexidade que torna o filme o mais preciso sobre lealdade institucional que o cinema americano produziu.

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Dois Dias, Uma Noite (2014) Deux jours, une nuit - 1 h 35 min
Dir: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne

Sandra foi afastada por doença. Quando voltou, a empresa tinha um problema: ela ou o bônus dos colegas. Só poderia ser um dos dois.

A lealdade como recurso escasso

Dois Dias, Uma Noite se passa num fim de semana em que Sandra, operária belga que havia sido afastada por depressão, tenta convencer os dezesseis colegas a abrir mão do bônus anual para que a empresa não precise demití-la. A situação foi criada pelo gerente que apresentou aos trabalhadores uma escolha que não deveria ser deles: o bônus ou Sandra. Os Dardenne filmam o fim de semana de Sandra, porta a porta, cada conversa, cada recusa e cada aceitação, com a câmera de mão próxima ao rosto que é a linguagem cinematográfica mais precisa que o cinema social europeu produziu para examinar o que acontece com as pessoas dentro dos sistemas que as contém.

O segundo filme do bloco coloca ao lado do caso de Wigand, em que a empresa atacou diretamente quem havia sido seu funcionario, o caso de Sandra, em que a empresa usou os próprios colegas de Sandra como instrumento de eliminação. Os dois mecanismos são diferentes mas o argumento moral e o mesmo: a instituicao trata a lealdade como recurso a ser explorado e descarta quem não serve mais aos seus interesses imediatos, independentemente do que o trabalhador havia entregado antes de se tornar inconveniente.

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BLOCO 10 - OBSOLESCÊNCIA E EXCLUSÃO

O trabalhador que o mercado decidiu que não precisa mais. A obsolescência profissional é uma das experiências mais específicas do capitalismo contemporâneo: o trabalhador que foi valioso, que entregou anos de competência e dedicação, e que o sistema descarta por cálculo. A tecnologia substitui, a reestruturação elimina, a crise justifica, e o que era uma carreira vira de repente uma linha num organograma que desapareceu. Os dois filmes deste bloco examinam esse processo por dois ângulos diferentes: um grupo de executivos de alto nível que descobrem que a reestruturação corporativa não respeita currículo, e um funcionário demitido que esconde a demissão da família e vai até o extremo para recuperar o lugar que perdeu.

A Grande Virada (2010) The Company Men - 1 h 44 min
Dir: John Wells

Bobby Walker tinha o cargo, o carro, o campo de golfe e o bônus. Tinha tudo que o sistema prometia que seria suficiente. Até que não foi.

O custo da reestruturação

The Company Men acompanha três executivos de uma empresa de construção naval americana que são demitidos em ondas sucessivas de reestruturação durante a crise de 2008. Bobby Walker é o mais jovem e o mais convicto de que o problema e temporário, de que o curriculo vai resolver, de que alguém com suas credenciais não fica desempregado por muito tempo. Phil Woodward é o mais velho e o que entende mais rapidamente o que o curriculo não pode resolver: a lealdade de trinta anos não é argumento numa reestruturação que é um exercício de matemática, não de reconhecimento.

O primeiro filme do bloco está aqui porque Wells filmou a obsolescência profissional sem heroísmo e sem melodrama: o que seus personagens experimentam é o que qualquer pessoa experimenta quando o sistema decide que não precisa mais dela, e a escala de vida dos executivos não torna a experiência mais ou menos real do que seria para qualquer trabalhador em qualquer posição. O que The Company Men examina é a estrutura da perda, não o tamanho do salário que foi perdido.

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O Corte (2005) Le couperet - 1 h 57 min
Dir: Costa-Gavras

Bruno Davert foi demitido. Escondeu da família. Começou a eliminar os concorrentes que disputavam a mesma vaga. Costa-Gavras filmou o que a obsolescência produz quando não há saída disponível.

A obsolescência levada ao limite

O Corte é baseado no romance de Donald Westlake e acompanha Bruno Davert, um gerente de produção de papel demitido numa reestruturação que passa dezoito meses desempregado enquanto esconde a situação da familia. Quando identifica os candidatos que disputam as mesmas vagas que ele, Bruno decide eliminar sistematicamente a concorrência. Costa-Gavras filma esse argumento como comédia negra com a consciência de que o humor é o único instrumento que permite ao espectador habitar a lógica de Bruno sem que o horror da lógica destrua a possibilidade de examiná-la.

O segundo filme do bloco coloca ao lado da obsolescencia discreta de The Company Men a obsolescencia levada ao limite de O Corte, e a comparação e o argumento mais completo que o bloco pode fazer: o mecanismo da obsolescência profissional é o mesmo nos dois casos, o que muda é o que cada personagem faz com o desespero que o mecanismo produz. The Company Men examina o desespero por dentro. O Corte examina o que acontece quando o desespero encontra uma lógica própria e a segue até o fim.

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NOTA CURATORIAL FINAL

Até Onde Você Vai? O Trabalho como Território de Poder, Ambição e Conflito examinou ao longo de dez blocos e vinte filmes o mesmo território por ângulos diferentes. O poder que a posição confere e o que faz com quem a ocupa. A rivalidade entre iguais e o que produz quando a competição não tem limite. A pressão que o sistema impõe e o colapso que produz quando o organismo não aguenta mais. O preço do sucesso e quem realmente o paga. Os conflitos éticos que o trabalho produz e o que acontece com quem tenta resolvê-los com integridade. A lógica predatória que recompensa resultado sem questionar método. O amor que nasce dentro de hierarquias e o que as hierarquias fazem com ele. A identidade que o trabalho coloniza e o colapso que acontece quando essa identidade desmorona. A lealdade que as instituições exigem e raramente retribuem. E a obsolescência silenciosa de quem o mercado decide que não precisa mais.

O que esses vinte filmes têm em comum é que todos levaram a sério a ideia de que o ambiente profissional é um dos lugares onde a natureza humana se revela com mais clareza, precisamente porque as pessoas dentro dele acreditam que estão sendo profissionais e portanto neutras, objetivas, racionais. Os filmes sabem que não estão. E essa é a primeira e última coisa que a mostra tem a dizer.

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