Meryl Streep tem 21 indicações ao Oscar, mais do que qualquer outro ator ou atriz na história da Academia. Venceu três. Esses números são citados com tanta frequência que perderam a capacidade de dizer o que deveriam dizer.

O que os números não dizem é o seguinte: Streep nunca repetiu um personagem. Em cinco décadas de carreira, cada papel foi construído do zero, com sotaque diferente, corpo diferente, lógica interna diferente. A editora de moda que humilha em sussurros. A sobrevivente polonesa que carrega um segredo insuportável. A cantora sem talento que não sabia que não tinha talento. A freira que conduz uma cruzada sem provas. Nenhum desses personagens poderia ter sido interpretado da mesma forma por outra atriz.

Este é o critério desta seleção: 7 filmes, 7 personagens que só ela poderia ter feito. Não os filmes mais premiados, não os de maior bilheteria, não os mais famosos. Os que mostram por que Streep é um fenômeno sem equivalente no cinema americano.

A análise completa de cada filme está no Crítica Livre de Cinema.


O Diabo Veste Prada (2006) — David Frankel

Miranda Priestly não grita. Não precisa.

Miranda Priestly é o personagem mais reconhecível da carreira de Streep fora dos círculos cinéfilos. A editora-chefe da revista de moda mais poderosa do mundo que humilha em sussurros, que destrói carreiras com uma sobrancelha levantada, que nunca precisa levantar a voz porque todos ao redor já sabem o que acontece quando ela a levanta.

Streep recebeu indicação ao Oscar pela performance e perdeu para Helen Mirren em A Rainha. É considerada pela crítica como a performance cômica mais precisa da carreira de Streep, o que é mais raro do que parece: humor de contenção absoluta, onde a piada está no que não é dito.

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A Escolha de Sofia (1982) — Alan J. Pakula

Sofia fez uma escolha. Passou o resto da vida tentando esquecer que a fez.

O segundo Oscar de Streep. Sofia é uma sobrevivente polonesa do Holocausto que vive em Nova York nos anos 1940 carregando um segredo que o filme revela apenas no final. William Styron escreveu o romance em 1979 e a adaptação exigiu de Streep o domínio simultâneo de três idiomas, inglês com sotaque polonês, polonês e alemão, além de uma performance que constrói um personagem em dois tempos, o presente e o passado, com coerência total entre os dois.

É a performance mais tecnicamente exigente da carreira de Streep e um dos trabalhos de atuação mais estudados do cinema americano dos anos 1980.

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As Pontes de Madison (1995) — Clint Eastwood

Quatro dias. O amor que não coube numa vida inteira.

Francesca Johnson é uma dona de casa italiana no Iowa que conhece um fotógrafo da National Geographic durante quatro dias em que o marido está fora. O que acontece nesses quatro dias e o que ela faz com isso depois é o filme.

Streep e Clint Eastwood como diretor e co-estrela entregam a melhor versão possível de um material que nas mãos erradas seria melodrama sentimental. Streep recebeu sua décima indicação ao Oscar. É o personagem que equilibra força e contenção de uma forma que nenhum outro da lista faz: Francesca sabe o que escolhe e paga o preço da escolha com integridade completa.

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Dúvida (2008) — John Patrick Shanley

A irmã Aloysius não tem provas. Tem certeza. São coisas diferentes.

Uma diretora de escola católica no Bronx de 1964 que suspeita que um padre está tendo um relacionamento inapropriado com um aluno. Sem provas. Com uma convicção que o filme nunca absolve completamente.

Dúvida tem um dos elencos mais extraordinários do cinema americano dos anos 2000: Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis foram todos indicados ao Oscar pelo mesmo filme. A irmã Aloysius é o personagem mais moralmente ambíguo da lista: pode estar certa, pode estar errada, e o filme recusa entregar a resposta.

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As Horas (2002) — Stephen Daldry

Clarissa organizou a vida inteira em torno do cuidado dos outros. Num único dia percebeu o custo disso.

As Horas conecta três mulheres em três épocas diferentes através do romance Mrs. Dalloway de Virginia Woolf. Streep interpreta Clarissa Vaughan na Nova York de 2001, preparando uma festa para um amigo que está morrendo de AIDS e que foi o grande amor da sua vida.

Nicole Kidman venceu o Oscar como Virginia Woolf. Julianne Moore foi indicada. Philip Glass compôs a trilha. Streep como Clarissa é o elemento mais preciso do filme: uma mulher que chegou onde queria chegar e que num único dia entende o que deixou para trás.

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Florence Foster Jenkins (2016) — Stephen Frears

Florence achava que tinha a voz mais bonita do mundo. Não tinha. O filme não é sobre isso.

Florence Foster Jenkins era uma socialite americana dos anos 1940 que acreditava genuinamente ser uma cantora soprano de talento extraordinário. Não era. Pagava pela própria plateia para não ouvir a verdade. Em 1944, aos 76 anos, alugou o Carnegie Hall para um recital. A plateia lotou.

Streep canta desafinado durante o filme inteiro com uma convicção que é cômica e devastadora ao mesmo tempo. É uma performance que exige que o espectador ria e se comova pela mesma razão: Florence é ridícula e digna simultaneamente, o que é a combinação mais difícil que existe para qualquer ator sustentar.

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Julie & Julia (2009) — Nora Ephron

Julia Child aprendeu a cozinhar na França aos 36 anos. Levou dez anos para escrever o livro. Não desistiu.

Julie & Julia alterna entre Julia Child nos anos 1950 aprendendo culinária francesa em Paris e Julie Powell em 2002 tentando cozinhar todas as 524 receitas do livro de Child em um ano. Streep como Julia Child é a performance mais generosa da lista: grande, extrovertida, fisicamente transformada, com um sotaque e uma energia específicos que definem o personagem antes de qualquer palavra.

É o único personagem da lista onde Streep abandona a contenção completamente. E é o único onde isso é a escolha certa.

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