O que os números não dizem é o seguinte: Streep nunca
repetiu um personagem. Em cinco décadas de carreira, cada papel foi construído
do zero, com sotaque diferente, corpo diferente, lógica interna diferente. A
editora de moda que humilha em sussurros. A sobrevivente polonesa que carrega
um segredo insuportável. A cantora sem talento que não sabia que não tinha
talento. A freira que conduz uma cruzada sem provas. Nenhum desses personagens
poderia ter sido interpretado da mesma forma por outra atriz.
Este é o critério desta seleção: 7 filmes, 7 personagens que
só ela poderia ter feito. Não os filmes mais premiados, não os de maior
bilheteria, não os mais famosos. Os que mostram por que Streep é um fenômeno
sem equivalente no cinema americano.
A análise completa de cada filme está no Crítica Livre de
Cinema.
O Diabo Veste Prada (2006) — David Frankel
Miranda Priestly não grita. Não precisa.
Miranda Priestly é o personagem mais reconhecível da
carreira de Streep fora dos círculos cinéfilos. A editora-chefe da revista de
moda mais poderosa do mundo que humilha em sussurros, que destrói carreiras com
uma sobrancelha levantada, que nunca precisa levantar a voz porque todos ao
redor já sabem o que acontece quando ela a levanta.
Streep recebeu indicação ao Oscar pela performance e perdeu
para Helen Mirren em A Rainha. É considerada pela crítica como a performance
cômica mais precisa da carreira de Streep, o que é mais raro do que parece:
humor de contenção absoluta, onde a piada está no que não é dito.
A análise completa e onde assistir está no
A Escolha de Sofia (1982) — Alan J. Pakula
Sofia fez uma escolha. Passou o resto da vida tentando
esquecer que a fez.
O segundo Oscar de Streep. Sofia é uma sobrevivente polonesa
do Holocausto que vive em Nova York nos anos 1940 carregando um segredo que o
filme revela apenas no final. William Styron escreveu o romance em 1979 e a
adaptação exigiu de Streep o domínio simultâneo de três idiomas, inglês com
sotaque polonês, polonês e alemão, além de uma performance que constrói um
personagem em dois tempos, o presente e o passado, com coerência total entre os
dois.
É a performance mais tecnicamente exigente da carreira de
Streep e um dos trabalhos de atuação mais estudados do cinema americano dos
anos 1980.
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As Pontes de Madison (1995) — Clint Eastwood
Quatro dias. O amor que não coube numa vida inteira.
Francesca Johnson é uma dona de casa italiana no Iowa que
conhece um fotógrafo da National Geographic durante quatro dias em que o marido
está fora. O que acontece nesses quatro dias e o que ela faz com isso depois é
o filme.
Streep e Clint Eastwood como diretor e co-estrela entregam a
melhor versão possível de um material que nas mãos erradas seria melodrama
sentimental. Streep recebeu sua décima indicação ao Oscar. É o personagem que
equilibra força e contenção de uma forma que nenhum outro da lista faz:
Francesca sabe o que escolhe e paga o preço da escolha com integridade
completa.
A análise completa e onde assistir está no
A irmã Aloysius não tem provas. Tem certeza. São coisas
diferentes.
Uma diretora de escola católica no Bronx de 1964 que
suspeita que um padre está tendo um relacionamento inapropriado com um aluno.
Sem provas. Com uma convicção que o filme nunca absolve completamente.
As Horas (2002) — Stephen Daldry
Clarissa organizou a vida inteira em torno do cuidado dos
outros. Num único dia percebeu o custo disso.
As Horas conecta três mulheres em três épocas diferentes
através do romance Mrs. Dalloway de Virginia Woolf. Streep interpreta Clarissa
Vaughan na Nova York de 2001, preparando uma festa para um amigo que está
morrendo de AIDS e que foi o grande amor da sua vida.
Nicole Kidman venceu o Oscar como Virginia Woolf. Julianne
Moore foi indicada. Philip Glass compôs a trilha. Streep como Clarissa é o
elemento mais preciso do filme: uma mulher que chegou onde queria chegar e que
num único dia entende o que deixou para trás.
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Florence Foster Jenkins (2016) — Stephen Frears
Florence achava que tinha a voz mais bonita do mundo. Não
tinha. O filme não é sobre isso.
Florence Foster Jenkins era uma socialite americana dos anos
1940 que acreditava genuinamente ser uma cantora soprano de talento
extraordinário. Não era. Pagava pela própria plateia para não ouvir a verdade.
Em 1944, aos 76 anos, alugou o Carnegie Hall para um recital. A plateia lotou.
Streep canta desafinado durante o filme inteiro com uma
convicção que é cômica e devastadora ao mesmo tempo. É uma performance que
exige que o espectador ria e se comova pela mesma razão: Florence é ridícula e
digna simultaneamente, o que é a combinação mais difícil que existe para
qualquer ator sustentar.
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Julie & Julia (2009) — Nora Ephron
Julia Child aprendeu a cozinhar na França aos 36 anos.
Levou dez anos para escrever o livro. Não desistiu.
Julie & Julia alterna entre Julia Child nos anos 1950
aprendendo culinária francesa em Paris e Julie Powell em 2002 tentando cozinhar
todas as 524 receitas do livro de Child em um ano. Streep como Julia Child é a
performance mais generosa da lista: grande, extrovertida, fisicamente
transformada, com um sotaque e uma energia específicos que definem o personagem
antes de qualquer palavra.
É o único personagem da lista onde Streep abandona a
contenção completamente. E é o único onde isso é a escolha certa.
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