Poucos cineastas transformaram o gesto de olhar em matéria cinematográfica com tanta delicadeza quanto Abbas Kiarostami. Em seus filmes, a narrativa frequentemente nasce de gestos mínimos: uma criança procurando a casa de um amigo, um homem dirigindo por estradas poeirentas, um cineasta tentando filmar a própria realidade. Entre a simplicidade das situações e a profundidade das perguntas que surgem delas, o cinema de Kiarostami constrói uma das obras mais singulares da história do cinema moderno.

Desde seus primeiros trabalhos realizados no Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens no Irã até seus filmes mais reconhecidos internacionalmente, Kiarostami desenvolveu um estilo que dissolve as fronteiras entre ficção e documentário. Seus filmes convidam o espectador a participar ativamente do olhar: observar paisagens, ouvir silêncios, completar sentidos.

A estrada, recorrente em sua filmografia, torna-se um espaço de encontro entre o cotidiano e a filosofia. Personagens caminham, dirigem ou procuram algo aparentemente simples, mas nesse percurso surgem questões fundamentais sobre amizade, verdade, morte, memória e cinema.

“Caminhos do Olhar – A Obra de Abbas Kiarostami” propõe percorrer esse universo singular, acompanhando um cineasta que fez do minimalismo uma forma de poesia e do real uma matéria infinita para o cinema.


Uma jornada pelo cinema de Abbas Kiarostami

A obra de Abbas Kiarostami se constrói como um percurso contínuo, no qual cada filme parece nascer do anterior. Mais do que contar histórias, seu cinema observa o mundo: rostos, caminhos, silêncios, gestos mínimos. Ao longo de mais de quatro décadas, Kiarostami transformou o cotidiano em matéria poética e fez da relação entre realidade e ficção um dos territórios mais férteis do cinema moderno.

A retrospectiva “Caminhos do Olhar – A Obra de Abbas Kiarostami” percorre essa trajetória como uma viagem em cinco movimentos — dos primeiros filmes realizados no Irã dos anos 1970 até os trabalhos internacionais de sua maturidade artística.




1. Primeiros Passos sobre a Terra (1974–1977)

Os primeiros longas de Kiarostami nascem dentro do Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens (Kanun). Nesse ambiente pedagógico, o diretor desenvolve um cinema simples e direto, atento aos dilemas morais do cotidiano. Crianças e adultos comuns atravessam pequenas jornadas que revelam, sob gestos aparentemente modestos, questões profundas sobre responsabilidade, ética e convivência.






    A Experiência (1973) Tadjrebeh - 53 min

    Um primeiro gesto de cinema onde a solidão de um garoto revela a dignidade silenciosa dos invisíveis.






    O Viajante (1974) Mossafer - 1 h 23 min

    A obstinação de um menino por um jogo de futebol revela o preço moral do desejo.




    Um Terno de Casamento (1976) Lebassi Baraye Arossi - 54 min

    A passagem à maturidade pode revelar a fragilidade das ilusões sociais.







    O Relatório (1977) Gozaresh - 1 h 52 min

    A crise íntima de um funcionário público revela a corrosão silenciosa de uma sociedade inteira.








    2. O Cinema Entre a Vida e o Filme (1987–1994)

    Após quase uma década dedicada sobretudo a curtas e médias-metragens, Kiarostami retorna ao longa e redefine os limites entre ficção e realidade. Nesse período surgem os filmes que consolidam seu estilo: narrativas minimalistas, atores não profissionais e uma profunda atenção ao cotidiano.

    É também nesse momento que nasce a célebre Trilogia de Koker, composta por:

    • Where Is the Friend's House?
    • And Life Goes On
    • Through the Olive Trees
    Entre o primeiro e o segundo filmes da trilogia surge ainda Close-Up, uma obra extraordinária que reencena um caso real ocorrido no Irã e transforma o próprio cinema em objeto de reflexão.


    Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987) Khane-ye doust kodjast? - 1 h 23 min

    A busca obstinada de um menino para devolver um caderno torna-se um gesto radical de ética e amizade.





    Close-up (1990) Nema-ye Nazdik - 1 h 38 min

    Quando um homem comum finge ser um cineasta famoso, a fronteira entre realidade e encenação deixa de existir.





    E a Vida Continua (1992) Zendegi va digar hich - 1 h 35 min

    Após a devastação do terremoto, a busca por dois meninos transforma-se em meditação sobre persistência e reconstrução.





    Através das Oliveiras (1994) Zire darakhatan zeyton - 1 h 43 min

    Um amor não correspondido, filmado dentro de um filme, transforma-se em reflexão sobre persistência, encenação e liberdade.







    3. A Estrada e o Mistério da Existência (1997–1999)

    No final dos anos 1990, Kiarostami alcança reconhecimento mundial e realiza dois de seus filmes mais celebrados. A estrada torna-se o espaço privilegiado de suas narrativas, enquanto a paisagem iraniana se transforma em cenário para reflexões profundas sobre a vida, a morte e o sentido da existência.







    Gosto de Cereja (1997) Ta'm e guilass - 1 h 35 min

    Uma reflexão profunda sobre a vida e suas complexidades.






    O Vento nos Levará (1999) Bad ma ra khahad bord - 1 h 58 min

    À espera de uma morte anunciada, um estranho descobre a pulsação invisível da vida.







    4. Silêncios, Rostos e o Tempo (2002–2008)

    Com a chegada do vídeo digital, o cinema de Kiarostami torna-se ainda mais essencial. Os filmes passam a explorar dispositivos narrativos extremamente simples — conversas dentro de um carro ou a observação de rostos que assistem a uma história invisível. O espectador é convidado a completar o filme com seu próprio olhar.








      Dez (2002) Dah - 1 h 29 min

      Dentro de um carro em movimento, o Irã contemporâneo revela suas vozes femininas e suas fissuras invisíveis.




      Tickets (2005) - 1 h 49 min 
      Dir: Abbas Kiarostami, Ken Loach, Ermanno Olmi

      Três olhares, um trem e a delicadeza dos encontros que só existem enquanto duram.



      Shirin (2008) - 1 h 32 min

      Um filme onde o invisível se torna cinema e os rostos revelam a força da imaginação.







      5. Ecos do Olhar pelo Mundo (2010–2012)


      Nos últimos anos de sua carreira, Kiarostami leva seu cinema para fora do Irã. Filmados na Europa e no Japão, seus últimos trabalhos continuam investigando a natureza das relações humanas e o jogo entre verdade e representação — temas que atravessaram toda sua filmografia.








      Cópia Fiel (2010) Copie conforme - 1 h 46 min

      Um encontro aparentemente casual que transforma a realidade em um delicado jogo de reflexos entre verdade e representação.





      Um Alguém Apaixonado (2012) Like Someone in Love - 1 h 49 min

      Uma noite em Tóquio onde solidão, desejo e proteção se entrelaçam em silêncio.