Poucas cinematografias no mundo construíram, com tamanha coerência estética e força moral, uma tradição tão singular quanto a do Irã. Desde o surgimento da Nova Onda Iraniana, no final dos anos 1960, o cinema do país passou a transformar limitações em linguagem e censura em metáfora, reinventando a própria ideia de realismo. Obras como
The Cow, de Dariush Mehrjui, abriram caminho para uma geração que faria do cotidiano um território filosófico e da simplicidade formal uma ferramenta de profunda investigação humana.
A partir daí, nomes como
Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi consolidaram um cinema que dissolve as fronteiras entre ficção e documentário, infância e maturidade, realidade e encenação. Em filmes como
Close-Up e
Taste of Cherry, a câmera não apenas observa — ela escuta, espera e contempla. O silêncio torna-se discurso; o gesto mínimo adquire dimensão universal.
Seus herdeiros ampliaram essa herança para o século XXI. Com rigor narrativo e complexidade moral, realizadores como
Asghar Farhadi levaram o cinema iraniano ao centro do debate internacional, como em
A Separation, onde conflitos íntimos revelam fraturas sociais profundas. Outros cineastas, mesmo diante de restrições severas, reafirmaram o cinema como ato de resistência e criação.
Ao reunir 69 filmes ao longo de mais de seis décadas, esta mostra não pretende apenas celebrar uma tradição. Pretende revelar como, em diferentes contextos históricos, o cinema iraniano reinventou continuamente suas formas de narrar, olhar e resistir. Entre silêncio e confronto, minimalismo e intensidade urbana, tradição e modernidade, o cinema do Irã permanece como uma das expressões mais sofisticadas, inquietas e necessárias do cinema mundial contemporâneo.
Bloco 1 – Precursores e Marco Inicial (1960–1979) Entre 1963 e 1977, o cinema iraniano atravessou uma transformação decisiva: deixou para trás o modelo comercial dominante e inventou uma linguagem moderna, ética e autoral que redefiniria sua identidade perante o mundo. Este bloco reúne os doze longas — e o curta fundador — que estruturam essa virada histórica. De The House Is Black, de Forough Farrokhzad, gesto inaugural que funde poesia e realidade, ao modernismo urbano de Brick and Mirror, de Ebrahim Golestan, consolida-se um novo modo de olhar: mais atento ao cotidiano, à ambiguidade moral e à dignidade dos invisíveis.
Com The Cow e The Cycle, Dariush Mehrjui amplia o alcance da crítica social, ora pela alegoria rural, ora pela denúncia institucional direta. Entre esses extremos, surgem vertentes complementares: a tensão urbana e pré-revolucionária de The Deer, de Masoud Kimiai; o modernismo inquieto de Downpour e a alegoria estilizada de The Stranger and the Fog, de Bahram Beyzai; o minimalismo radical de A Simple Event e Still Life, de Sohrab Shahid Saless; e a formação ética do olhar infantil em The Experience e The Traveler, de Abbas Kiarostami.
Juntos, esses filmes compõem um mosaico estético e moral que antecede a ruptura histórica de 1979, mas já anuncia um cinema capaz de transformar limitação em invenção e silêncio em discurso. O Bloco 1 não é apenas um panorama cronológico: é o registro do momento em que o Irã descobriu, através da imagem, uma nova forma de pensar a si mesmo — e de falar ao mundo.
A Casa é Escura (1963) Khaneh siah ast - 20 min (CURTA) (DOC) Dir: Forough Farrokhzad
Um poema filmado que transforma exclusão em dignidade e dor em contemplação.
Tijolo e Espelho (1966) Khesht va Ayeneh - 2 h 6 min Dir: Ebrahim Golestan
Um encontro fortuito com um bebê abandonado transforma uma noite comum em um espelho moral de uma sociedade inteira.
A Vaca (1969) Gaav - 1 h 44 min Dir: Dariush Mehrjui
A história de um homem que, ao perder seu animal, perde também sua própria identidade.
Halou (1970) (MR. GULLIBLE) - 1 h 46 min Dir: Dariush Mehrjui
A ingenuidade de um homem simples expõe as contradições morais de uma cidade em transformação.
Aguaceiro (1972) Ragbar - 2 h 8 min Dir: Bahram Beyzai
Um professor solitário enfrenta a intolerância silenciosa de uma comunidade que teme aquilo que não compreende.
Etefagh sadeh (1973) (A SIMPLE EVENT) - 1 h 20 min Dir: Sohrab Shahid Saless
A morte da mãe é tratada como rotina — e nessa simplicidade reside a devastação.
A Experiência (1973) Tadjrebeh - 53 min Dir: Abbas Kiarostami
Um primeiro amor silencioso revela as fronteiras invisíveis entre infância, desejo e desigualdade social.
Tabiate bijan (1974) (STILL LIFE) - 1 h 33 min Dir: Sohrab Shahid Saless
A rotina imutável de um guarda de ferrovia revela a lentidão silenciosa da exclusão social.
O Viajante (1974) Mossafer - 1 h 23 min Dir: Abbas Kiarostami
A obstinação de um menino por um jogo de futebol revela o preço moral do desejo.
Gavaznha (1974) (THE DEER) - 2 h Dir: Masud Kimiai
A amizade entre dois homens à margem da sociedade torna-se retrato trágico de uma geração sem saída.
Va Meh (1975) (THE STRANGER AND THE FOG) - 2 h 26 min Dir: Bahram Beyzaie
Um homem sem memória emerge da névoa e transforma uma aldeia em palco de mito, desejo e ameaça.
Dayereh mina (1977) (THE CYCLE) - 1 h 41 min Dir: Dariush Mehrjui
Um mercado clandestino de sangue revela a anatomia moral de uma sociedade em decomposição.
O Relatório (1977) Gozaresh - 1 h 52 min Dir: Abbas Kiarostami
A crise íntima de um funcionário público revela a corrosão silenciosa de uma sociedade inteira.
Bloco 2 – Reinvenção e Consolidação Pós-Revolução (1982–1990)
A década de 1980 representou um período de profunda transformação para o cinema iraniano. Após a Revolução de 1979 e em meio à Guerra Irã-Iraque, cineastas precisaram reinventar sua linguagem sob novas restrições políticas e culturais. Longe de enfraquecer a produção artística, esse contexto estimulou soluções formais sofisticadas: alegorias históricas, minimalismo narrativo, protagonismo infantil e dramas urbanos psicológicos tornaram-se estratégias para refletir sobre identidade, trauma e verdade. Filmes como Death of Yazdgerd e The Runner mostram como o passado e a infância puderam servir como espelhos do presente.Ao longo da década, consolidou-se uma geração que levaria o cinema iraniano ao reconhecimento internacional. Em obras como Where Is the Friend's Home? e The Cyclist, o cotidiano e o corpo tornam-se territórios de resistência simbólica. Já Bashu, the Little Stranger introduz uma dimensão humanista à experiência da guerra, enquanto Hamoun mergulha na crise existencial da classe média urbana. O período culmina com a radical experimentação de Close-Up, que dissolve fronteiras entre documentário e ficção e anuncia uma nova fase do cinema mundial.
Este bloco revela um momento de maturação estética e complexidade intelectual. Se o Bloco 1 apresentou o nascimento da linguagem moderna iraniana, o Bloco 2 demonstra sua consolidação sob pressão histórica. É aqui que o cinema do Irã deixa de ser apenas promessa autoral e se afirma como uma das cinematografias mais inventivas e influentes do final do século XX.
Marg Yazdgerd (1982) (DEATH OF YAZDGERD) - 1 h 50 min Dir: Bahram Beyzaie
Um julgamento histórico transforma-se em investigação sobre verdade, poder e construção da narrativa.
O Corredor (1984) Davandeh - 1 h 34 min Dir: Amir Naderi
A corrida incessante de um menino pobre transforma sobrevivência em afirmação de dignidade.
Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987) Khane-ye doust kodjast? - 1 h 23 minDir: Abbas Kiarostami
A busca obstinada de um menino para devolver um caderno torna-se um gesto radical de ética e amizade.
Vaghti Deegar (1988) (MAYBE SOME OTHER TIME) - 2 h 39 min Dir: Bahram Beyzaie
Ao acreditar reconhecer a própria esposa em uma imagem televisiva ambígua, um homem mergulha num labirinto de suspeita, memória e identidade.
O Ciclista (1989) Bicycleran - 1 h 22 min Dir: Mohsen Makhmalbaf
Um homem pedala sem parar para salvar a esposa — e transforma o próprio corpo em espetáculo de exploração.
Bashu, O Pequeno Estrangeiro (1989) Bashu, gharibeye koochak - 2 h Dir: Bahram Beyzaie
As dificuldades enfrentadas por aqueles que são forçados a deixar suas casas devido à guerra.
Dir: Dariush Mehrjui
A crise conjugal de um intelectual transforma-se em vertigem existencial entre sonho, filosofia e desespero.
Close-up (1990) Nema-ye Nazdik - 1 h 38 min Dir: Abbas Kiarostami
Quando um homem comum finge ser um cineasta famoso, a fronteira entre realidade e encenação deixa de existir.
🎬 Bloco 3 – Consagração Internacional e Expansão Estética (1990–2000)
A década de 1990 marcou o momento em que o cinema iraniano deixou de ser apenas uma descoberta de cinéfilos atentos para se tornar referência central no cenário mundial. Após a reinvenção sob as restrições do pós-Revolução, os cineastas iranianos transformaram limitações em linguagem e alcançaram uma maturidade estética singular. Obras como
And Life Goes On e
Through the Olive Trees, de
Abbas Kiarostami, radicalizaram a relação entre realidade e ficção, consolidando uma poética baseada na ambiguidade, na duração e na autorreflexividade. Ao mesmo tempo, novos nomes emergiam com força própria, como
Jafar Panahi em
The White Balloon, que levou ao mundo o minimalismo ético iraniano sob olhar renovado.
Este período também testemunhou a ampliação temática e geracional da cinematografia do país. A explosão cromática de Gabbeh e o metacinema refinado de A Moment of Innocence, de Mohsen Makhmalbaf, dialogaram com o reconhecimento máximo alcançado por Taste of Cherry, Palma de Ouro em Cannes. Paralelamente, o drama íntimo de Leila, de Dariush Mehrjui, e o humanismo acessível de Children of Heaven, de Majid Majidi, ampliaram o alcance emocional do cinema iraniano. A emergência de The Apple, de Samira Makhmalbaf, sinalizou a chegada de uma nova geração e o fortalecimento de vozes femininas.
O Bloco 3 revela, portanto, o momento em que o cinema do Irã se afirma como linguagem universal, capaz de articular minimalismo e experimentação, intimismo e reflexão filosófica, tradição e modernidade. Entre contemplação e ousadia formal, essa década consolidou uma das cinematografias mais influentes do final do século XX — não apenas reconhecida internacionalmente, mas decisiva para redefinir os caminhos do cinema contemporâneo.
E a Vida Continua (1992) Zendegi va digar hich - 1 h 35 min Dir: Abbas Kiarostami
Após a devastação do terremoto, a busca por dois meninos transforma-se em meditação sobre persistência e reconstrução.
Através das Oliveiras (1994) Zire darakhatan zeyton - 1 h 43 min Um amor não correspondido, filmado dentro de um filme, transforma-se em reflexão sobre persistência, encenação e liberdade.
O Balão Branco (1995) Badkonake sefid - 1 h 25 min Dir: Jafar Panahi
O desejo simples de comprar um peixe dourado revela a complexidade moral de uma cidade inteira.
Salve o Cinema (1995) Salam Cinema (1 h 15 min) Dir: Mohsen Makhmalbaf
Ao convocar milhares de pessoas para um teste de elenco, o cinema revela o desejo coletivo de existir diante da câmera.
Gabbeh (1996) - 1 h 15 min Dir: Mohsen Makhmalbaf
Das cores de um tapete nasce uma história de amor, tradição e liberdade.
Um Instante de Inocência (1996) Nun va Goldoon - 1 h 18 min Dir: Mohsen Makhmalbaf
Ao reencenar um episódio violento de sua juventude, um diretor transforma memória e culpa em cinema.
Leila (1997) - 1 h 42 min Dariush Mehrjui
O amor conjugal é posto à prova quando tradição e desejo de maternidade entram em conflito.
Gosto de Cereja (1997) Ta'm e guilass - 1 h 35 min Dir: Abbas Kiarostami
Uma reflexão profunda sobre a vida e suas complexidades.
Filhos do Paraíso (1997) Bacheha-Ye aseman - 1 h 29 min Majid Majidi
Quando a Pobreza Aprende a Andar em Silêncio
O Espelho (1997) Ayneh - 1 h 35 min Dir: Jafar Panahi
Uma menina decide abandonar o filme — e o cinema se revela diante de nós.
A Maçã (1998) Sib - 1 h 26 min Dir: Samira Makhmalbaf
Ao libertar duas meninas mantidas isoladas por anos, o cinema revela a delicada fronteira entre realidade e encenação.
Golabi (1998) (THE PEAR TREE) - 1 h 35 min Dir: Dariush Mehrjui
Um escritor bloqueado retorna à casa de infância e descobre que a memória é o verdadeiro fruto amadurecido pelo tempo.
O Vento nos Levará (1999) Bad ma ra khahad bord - 1 h 58 min Dir: Abbas Kiarostami
À espera de uma morte anunciada, um estranho descobre a pulsação invisível da vida.
A Cor do Paraíso (1999) Rang-e khoda - 1 h 30 min Dir: Majid Majidi
Um menino cego enxerga o mundo com o coração enquanto o pai luta contra a própria vergonha.
O Círculo (2000) Dayereh - 1 h 30 min Dir: Jafar Panahi
Uma denúncia radical da condição feminina no Irã, articulada por meio de uma forma narrativa rigorosa e implacável.
Tempo de Embebedar Cavalos (2000) Zamani barayé masti asbha - 1 h 20 min Dir: Bahman Ghobadi
Entre montanhas geladas e fronteiras invisíveis, crianças lutam para sobreviver onde a infância não tem tempo de existir.
🎬 Bloco 4 – Diversificação, Conflito e Nova Geração (2001–2009)
Os anos 2000 inauguram uma nova etapa para o cinema iraniano. Se a década anterior foi marcada pela consagração internacional, este período amplia o espectro temático e formal da cinematografia do país. A maturidade conquistada nos anos 90 abre espaço para narrativas mais urbanas, mais políticas e mais diretamente conectadas às transformações sociais do Irã contemporâneo. Em filmes como Ten, de Abbas Kiarostami, a radicalização formal atinge novo patamar com o uso do digital e da estrutura minimalista, enquanto Crimson Gold, de Jafar Panahi, explicita a desigualdade urbana com contundência inédita.Ao mesmo tempo, o bloco revela a ampliação geográfica e geracional do cinema iraniano. Turtles Can Fly e Half Moon, de Bahman Ghobadi, deslocam o olhar para o Curdistão e para territórios periféricos, enquanto The Song of Sparrows, de Majid Majidi, revisita o humanismo sob nova perspectiva social. A juventude urbana emerge com vigor em No One Knows About Persian Cats, que revela a cena musical underground de Teerã, ao passo que About Elly, de Asghar Farhadi, anuncia uma nova forma de drama moral sofisticado que marcaria a década seguinte.
O Bloco 4, portanto, registra um cinema em transição: menos alegórico e mais frontal, menos contemplativo e mais urbano, atento às fraturas sociais, às tensões geracionais e às transformações culturais do início do século XXI. É o momento em que o cinema iraniano, já reconhecido mundialmente, aprofunda sua complexidade interna e prepara o terreno para o ciclo de resistência e confrontação política que definirá a década seguinte.
Zir-e poost-e shahr (2001) (UNDER THE SKIN OF THE CITY) - 1 h 32 min Dir: Rakhshan Banietemad
A luta diária de uma mãe revela as fissuras invisíveis da sociedade iraniana no limiar do novo milênio.
Baran (2001) - 1 h 34 min Dir: Majid Majidi
Continua atual ao refletir sobre fronteiras, trabalho e pertencimento.
O Voto é Secreto (2001) Raye makhfi - 1 h 40 min Dir: Babak Payami
Em uma ilha remota, o ideal democrático confronta a indiferença e o desconhecimento cotidiano.
Exílio no Iraque (2002) Gomgashtei dar Aragh - 1 h 40 min Dir: Bahman Ghobadi
Entre fronteiras e ruínas de guerra, a música torna-se a última forma de pertencimento.
Dez (2002) Dah - 1 h 29 min Dir: Abbas Kiarostami
Dentro de um carro em movimento, o Irã contemporâneo revela suas vozes femininas e suas fissuras invisíveis.
Ouro Carmim (2003) Talaye sorkh - 1 h 37 min Dir: Jafar Panahi
A humilhação cotidiana transforma-se em explosão silenciosa dentro de uma cidade desigual.
Tartarugas Podem Voar (2004) Lakposhtha parvaz mikonand - 1 h 38 min Dir: Bahman Ghobadi
Às vésperas da guerra, a infância aprende a sobreviver entre minas terrestres e esperanças frágeis.
Shahr-e ziba (2004) (BEAUTIFUL CITY) - 1 h 38 min Dir: Asghar Farhadi
Entre a justiça e o perdão, a vida de um jovem depende da frágil negociação entre dor e compaixão.
Entre Luzes e Sombras (2005) Beed-e majnoon - 1 h 36 min Dir: Majid Majidi
Recuperar a visão pode significar perder a própria clareza interior.
Quarta-Feira de Fogos de Artifício (2006) Chaharshanbe-soori - 1 h 42 min Dir: Asghar Farhadi
Em meio ao ruído festivo da cidade, um casamento implode sob o peso da suspeita e do silêncio.
Fora do Jogo (2006) Afsaid - 1 h 33 min Dir: Jafar Panahi
O desejo de assistir a um jogo revela as fronteiras invisíveis impostas às mulheres.
E Buda Desabou de Vergonha (2007) Buda as sharm foru rikht - 1 h 21 min Dir: Hana Makhmalbaf
Em meio às ruínas da história, uma criança tenta aprender a escrever o próprio nome.
A Canção dos Pardais (2008) Avaze gonjeshk-ha - 1 h 36 min Dir: Majid Majidi
Entre a simplicidade do campo e o ruído da cidade, um homem descobre o valor invisível do que já possuía.
Ninguém Sabe dos Gatos Persas (2009) Kasi az gorbehaye irani khabar nadareh - 1 h 46 min Dir: Bahman Ghobadi
Em becos e porões de Teerã, a música underground pulsa como forma de liberdade clandestina.
Procurando Elly (2009) Darbareye Elly - 1 h 59 min Dir: Asghar Farhadi
Um desaparecimento transforma um passeio à beira-mar em labirinto moral sem saída.
Keshtzar haye sepid (2009) (THE WHITE MEADOWS) - 1 h 32 min Dir: Mohammad Rasoulof
Em um arquipélago de sal e silêncio, lágrimas tornam-se metáfora de uma sociedade que sufoca seus dissidentes.
🎬 Bloco 5 – Resistência, Conflito e Reconhecimento Global (2010–2025)
A partir de 2010, o cinema iraniano entra em uma fase marcada por tensão aberta entre criação artística e poder estatal. Se nas décadas anteriores a crítica social frequentemente se articulava por meio de alegorias e sutilezas formais, agora muitos cineastas passam a filmar sob vigilância, proibições e até prisão. Obras como
This Is Not a Film e
Taxi, de Jafar Panahi, transformam a própria condição de impedimento em matéria cinematográfica. O gesto de filmar torna-se ato político explícito, e o cinema assume o papel de resistência direta.
Ao mesmo tempo, o reconhecimento internacional atinge seu ponto mais alto. A Separation e The Salesman, de Asghar Farhadi, consolidam o drama moral iraniano como referência global, enquanto There Is No Evil e The Seed of the Sacred Fig, de Mohammad Rasoulof, confrontam diretamente estruturas de poder e responsabilidade individual. O cinema deixa de apenas sugerir fissuras: ele as expõe frontalmente.
Este bloco também revela a emergência de novas vozes e perspectivas. Filmes como Hit the Road, de Panah Panahi, e My Favourite Cake, de Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha, ampliam o espectro geracional e reforçam o protagonismo feminino em um contexto social em transformação. Ao reunir obras que atravessam clandestinidade, exílio, consagração em festivais e indicação ao Oscar — como It Was Just an Accident — o Bloco 5 encerra a mostra afirmando que o cinema iraniano contemporâneo não apenas sobrevive às adversidades: ele as transforma em linguagem, memória e gesto de afirmação artística diante da história.
A Separação (2011) Jodaeiye Nader az Simin - 2 h 3 min Dir: Asghar Farhadi
Entre escolhas impossíveis e verdades fragmentadas
Cortinas Fechadas (2013) Pardeh - 1 h 46 min Dir: Jafar Panahi, Kambuzia Partovi
Quando as cortinas se fecham para o mundo exterior, o cinema torna-se o único espaço possível de respiração.
Manuscritos não Queimam (2013) Dast-neveshtehaa nemisoosand - 2 h 5 min Dir: Mohammad Rasoulof
Quando a palavra é ameaçada, o silêncio torna-se campo de batalha.
Táxi Teerã (2015) Taxi - 1 h 22 min Dir: Jafar Panahi
Um táxi em movimento que transforma as ruas de Teerã num retrato vivo da liberdade possível.
O Apartamento (2016) Forushande - 2 h 04 min Dir: Asghar Farhadi
Um filme sobre a difícil linha entre justiça e vingança
CRÍTICA LIVRE DE CINEMA
Abad va yek rooz (2016) (LIFE AND A DAY) - 1 h 52 min Dir: Saeed Roustayi
Em um apartamento apertado, o futuro se negocia entre desespero econômico e lealdade familiar.
Lerd (2017) (A MAN OF INTEGRITY) - 1 h 53 min Dir: Mohammad Rasoulof
Em uma sociedade onde tudo pode ser comprado, a integridade torna-se o último território de resistência.
3 Faces (2018) Se rokh - 1 h 40 min Dir: Jafar Panahi
Três mulheres, três gerações, um país que ainda decide quem pode ou não pode ocupar o palco.
Metri Shesh Va Nim (2019) (LAW OF TEHRAN) - 2 h 11 min Dir: Saeed Roustayi
Em uma cidade sitiada pelo tráfico, a justiça corre na mesma velocidade que o desespero.
Não Há Mal Algum (2020) Sheytan vojud nadarad - 2 h 31 min Dir: Mohammad Rasoulof
Quatro histórias que revelam como a obediência cotidiana pode carregar o peso devastador da culpa.
Um Herói (2021) Ghahreman - 2 h 7 min Dir: Asghar Farhadi
Em uma sociedade movida por reputação, a verdade pode ser menos poderosa que a narrativa.
Khaki (2021) (HIT THE ROAD) - 1 h 33 min Dir: Panah Panahi
Uma viagem familiar atravessa paisagens áridas enquanto carrega um adeus que não pode ser dito.
Baradaran-e Leila (2022) (LEILA'S BROTHERS) - 2 h 45 min Dir: Saeed Roustayi
Em meio ao colapso econômico, uma mulher tenta salvar a família enquanto o patriarcado insiste em preservar sua própria ilusão de poder.
Sem Ursos (2022) Khers nist - 1 h 46 min Dir: Jafar Panahi
Quando a fronteira é invisível, o medo torna-se instrumento de controle.
A Semente do Fruto Sagrado (2024) Dane-ye anjir-e ma'abed - 2 h 47 min Dir: Mohammad Rasoulof
Quando a autoridade se infiltra no lar, a família torna-se campo de vigilância e suspeita.
Foi Apenas Um Acidente (2025) Yek tasadef sadeh - 1 h 45 min Dir: Jafar Panahi
Um estudo profundo sobre trauma, moralidade e vingança.
Encerramento da Mostra
Ao percorrer mais de seis décadas de criação, esta mostra revela um cinema que jamais deixou de se reinventar diante da história. Da invenção moderna da Nova Onda ao enfrentamento direto das tensões contemporâneas, o cinema iraniano transformou restrição em linguagem, silêncio em potência poética e conflito em reflexão ética universal. Seus autores fizeram do cotidiano matéria filosófica, da infância metáfora moral, do espaço urbano território de crise e da própria filmagem um gesto de resistência. Ao reunir essas obras em cinco blocos históricos, reafirmamos que o cinema do Irã não é apenas capítulo fundamental da cinematografia mundial — é um dos seus motores mais inquietos, humanos e profundamente necessários.